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Historiadora Mary Del Priore reflete sobre mudanças sociais, desafios e impactos na vida das crianças brasileiras

“A infância mudou radicalmente”, afirma a historiadora e pesquisadora Mary Del Priore. Em encontro com as ocupantes das cadeiras números 10 e 19 da Academia Brasileira de Pediatria (ABP), Magda Maria Sales Carneiro Sampaio e Luciana Rodrigues Silva, respectivamente, ela destacou como transformações culturais, econômicas e familiares alteraram profundamente a forma de ser criança e adolescente no Brasil.

Segundo a pesquisadora, a partir da segunda metade do século XX, as mudanças se aceleraram. “Dos anos 50 em diante, vemos surgir a criança consumidora, o impacto da televisão, a multiplicação de especialidades pediátricas e a transformação da família patriarcal em famílias nucleares e depois mosaico. Tudo isso mudou o solo no qual as crianças se desenvolvem”.

Em sua vasta obra, que inclui títulos como Uma breve história do Brasil, Histórias da Gente Brasileira (em quatro volumes), Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil e O mal sobre a terra, Mary tem se dedicado a compreender como a sociedade brasileira se organiza em torno de temas como a infância, a família, a sexualidade e a vida privada. Essa perspectiva histórica, explica ela, é essencial para entender as questões atuais que atravessam o cotidiano dos pediatras.

A infância e a adolescência em transformação: o olhar da História

Até meados do século XX, a educação das crianças era responsabilidade quase exclusiva da família extensa, avós, tios e pais. “Nos anos 50 vai aparecer um personagem novo: o pediatra. Em vez de consultar as avós, as mães passam a procurar os especialistas”. Esse movimento coincidiu com a ascensão da televisão como “babá eletrônica” e com a consolidação de uma infância marcada pelo consumo: brinquedos, roupas, programas infantis e novos hábitos urbanos.

Adultização precoce, consumismo e desigualdade social

Mary também chama a atenção para a adultização precoce das crianças brasileiras, um fenômeno que se intensificou a partir da década de 1980. Programas de televisão, bonecas como a Barbie e a lógica do consumo passaram a ensinar meninas a se enxergar como pequenas mulheres. “Esses modelos não tinham nada de infantil. A Barbie, por exemplo, não ensina a maternar, mas a consumir. Isso teve um impacto horroroso na vida das nossas crianças”.

Ela alerta para os efeitos da desigualdade social, que expõe as crianças mais pobres a maiores riscos: “A criança pobre, que vem de lares desfeitos, é alvo preferencial da prostituição e da violência. Muitas vezes, a própria mãe, por medo de perder o companheiro, fecha os olhos para o abuso”.

Outro ponto central é a influência da tecnologia. “Hoje, a internet afeta diretamente o desenvolvimento cognitivo das crianças. Elas não têm sono, não têm atenção, não desenvolvem linguagem. E mergulham em um universo de violência e consumo que aumenta os índices de depressão e suicídio entre adolescentes”.

A historiadora lembra ainda que a partir dos anos 70 o divórcio e a inserção crescente das mulheres no mercado de trabalho modificaram a dinâmica familiar, resultando em núcleos menores e mais instáveis. A figura do pai, por sua vez, historicamente ausente, manteve-se distante em grande parte da população, reforçando o peso das mulheres como principais cuidadoras.

Para Mary, a História mostra que cada geração de crianças é moldada pelas condições de seu tempo. Mas cabe à sociedade como um todo, família, escola, Estado, assumir responsabilidades no cuidado com a infância. É um esforço coletivo. “Nós passamos de um mundo onde a família era de um jeito e hoje é de outro. Portanto, o papel de transmissora de valores está muito afetado. Os pediatras têm muito o que fazer”.

Sobre a autora

Mary Del Priore é historiadora, doutora pela USP e pós-doutora pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris. Autora de 54 livros de História do Brasil, recebeu mais de vinte prêmios literários, entre eles quatro Jabutis. Lecionou na USP, na PUC-Rio e em cursos de pós-graduação, além de colaborar com jornais, revistas e programas de rádio. É membro de diversas academias de História no Brasil e no exterior e integra a Academia Paulista de Letras. Sua obra foca em temas como infância, família, sexualidade e vida privada.