Sandra Grisi: uma trajetória de ciência, liderança e transformação na Pediatria brasileira
Referência na medicina brasileira, a Profa. Dra.Sandra Josefina Ferraz Ellero Grisi personifica a evolução da Pediatria nas últimas décadas. Primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Pediatria (ABP), sua carreira une o rigor científico à sensibilidade clínica. Nesta entrevista, a ocupante da cadeira nº 6 resgata suas motivações iniciais, relembra sua contribuição histórica para o tratamento da desidratação infantil, trabalho que alcançou reconhecimento pela Organização Mundial da Saúde, e reflete sobre os desafios éticos e práticos que aguardam as novas gerações de pediatras em um mundo cada vez mais digital.
BOLETIM ABP: Por que a senhora decidiu cursar Medicina e, especificamente, Pediatria? Teve influência de alguém?
SANDRA GRISI: Um sonho de infância, nascido, talvez, espontaneamente de um chamamento íntimo e natural. Não há nenhum outro médico em minha família. Minha família é toda voltada para área de educação, mas desde criança eu dizia que seria médica. Já em relação à Pediatria, essa, sim, me lembro muito bem. Durante o curso médico, desde logo eu me interessava pela Clínica Médica, em particular pela endocrinologia, mas ao passar pelo estágio de Pediatria, no internato, eu encontrei-me com uma paixão. O modo de ver a criança, em seu contexto global e cuidar dela em toda sua magnitude, para mim foi a revelação do verdadeiro significado da Medicina. Então, no 5º ano da faculdade, decidi fazer Pediatria e posso afirmar ter sido uma escolha muito feliz. A Pediatria me trouxe a alegria e uma maneira melhor de ver e viver a vida. Cuidar de uma criança desde o seu nascimento até o final da adolescência, estar presente em todos os momentos de problemas clínicos e apoiar os pais e familiares não só nos momentos de doença, mas principalmente no crescimento e desenvolvimento da criança deu sentido especial na minha atividade profissional. Para me fazer entender melhor, peço licença para usar a definição de Pediatria do professor Eduardo Marcondes em seu livro “Pediatria, Doutrina e Ação”: a Pediatria tem como objetivo final a criação de indivíduos fisicamente sadios, psiquicamente equilibrados e socialmente úteis”
BOLETIM ABP: A sua linha de pesquisa é voltada para ensino, política e práticas de atenção à saúde em Pediatria. Por que decidiu seguir por esse tema?
SANDRA GRISI: Depois da residência médica em Pediatria, eu prestei concurso público para trabalhar no Instituto da Criança e do Adolescente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e iniciei minha carreira na Enfermaria de Pediatria Clínica I. Uma enfermaria onde eram internadas crianças em estado crítico, vindas do Pronto-Socorro e, desta forma, atendia as crianças com as doenças mais prevalentes na sociedade naquela época. A partir do meu trabalho na Enfermaria de Pediatria Clínica I, eu fiz minha carreira assistencial, sendo anos mais tarde nomeada chefe do Serviço de Emergência que incluía o PS, a enfermaria geral e a UTI.
Concomitantemente, eu iniciei minha Pós-Graduação, sob a orientação do professor Giusepe Sperotto, que era um dos maiores pesquisadores na área de metabolismo de água e eletrólitos. Vale lembrar que nesta época a diarreia e desidratação eram a principal causa de doença e morte entre as crianças abaixo de 5 anos. Minha pesquisa no doutorado foi sobre tratamento oral da desidratação, com a tese “Contribuição ao estudo da terapia oral com soluções glico-eletrolíticas no tratamento da desidratação por diarreia”, exatamente porque nessa época a Organização Mundial de Saúde lançava a proposta de tratamento da desidratação através de uma solução oral e havia um grande debate na literatura médica sobre a eficácia desse tratamento e sobre suas indicações. A OMS argumentava que o tratamento por via oral para reposição hidroeletrolítica era eficiente e eficaz e poderia salvar milhares de crianças que não tinham acesso a serviço médico em condições de oferecer tratamento endovenoso. A minha tese contou com a técnica de balanço metabólico e demonstrou a eficácia do tratamento da desidratação por diarreia por via oral com solução glico-eletrolítica, teve grande repercussão e passou a integrar os referenciais da OMS. Com esse trabalho, o Prof. Sperotto e eu fomos chamados para integrar a comissão técnica da Coordenadoria de Saúde da Criança do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana de Saúde. Viajamos por todo o Brasil e América central e do sul fazendo treinamentos e em algumas regiões organizando Centros de Reidratação Oral. Foi com essa experiência que eu me deparei com a Pediatria Preventiva e Social e passei a trabalhar dentro dessa área. Daí, decorrem meus trabalhos nos campos da nutrição, particularmente da desnutrição, das Infecções de Vias Aéreas e do Crescimento e do Desenvolvimento. Ainda dentro dessa visão propus e criei o Centro de Referência em Saúde da Criança no Instituto da Criança do HC-FMUSP e, mais recentemente, o Centro de Desenvolvimento Infantil junto à FMUSP. Decorre desta atividade de Docente e Médica a linha de Pesquisa que você mencionou e que consta em meu currículo – Ensino, Política e Práticas de Atenção à Saúde em Pediatria. Paralelamente nunca deixei de atuar como professora e coordenadora de disciplinas na graduação e na Residência Médica em Pediatria, junto ao Departamento de Pediatria da FMUSP. Fiz toda a carreira na FMUSP e no ICR-HCFMUSP. Em 1982 defendi o Doutorado, em 1993 fiz a Livre-Docência e, em 2005 por concurso público galguei a posição de Professora Titular em Pediatria do Departamento de Pediatria da FMUSP. Foi uma carreira difícil e de muito trabalho, mas, como já disse me trouxe muitas alegrias.
BOLETIM ABP: A senhora sempre foi atuante na própria SBP, inclusive na diretoria de Ensino e Pesquisa. Como a senhora avalia a formação dos novos profissionais?
SANDRA GRISI: Sempre fui associada à Sociedade Brasileira de Pediatria e tive a oportunidade de contribuir com muitas aulas, palestras e participações em eventos científicos da nossa Sociedade, mas na gestão do Prof. Dr. Dioclécio Campos Junior, em 2007, fui convidada para coordenar a Diretoria de Ensino e Pesquisa da SBP. Nesta condição, reunimos um grupo de pediatras experts em Ensino e particularmente em formação do Pediatra nos programas de residência em Pediatria para revermos o programa nacional que estava em vigência de acordo com a orientação da Comissão Nacional de Residência Médica do Ministério da Educação. Esta demanda vinha de um sentimento dos jovens pediatras egressos recentes dos programas de residência médica na época que a demanda assistencial na sociedade era muito diferente da formação que haviam recebido; também era conhecido que o currículo da residência médica em Pediatria era da década de 70 e, portanto, não levava em conta a transição epidemiológica que o Brasil apresentava e estava defasado das reais necessidades de saúde das crianças e adolescentes do século 21. A par dessas constatações, comparando o currículo brasileiro com demais países, principalmente da Europa e América do Norte, era evidente a defasagem e a necessidade de revisão do nosso programa. Assim, o grupo de experts da Diretoria de Ensino e Pesquisa da SBP se debruçou sobre o programa de residência em Pediatria da CNRM e propôs um novo programa que abrangeu a atenção primária, secundária e terciária em Pediatria, necessário para formar um Pediatra que fosse capaz de enfrentar as novas demandas frente a transição epidemiológica do país e das transformações sociais que mudaram o cenário familiar e o meio ambiente onde nossas crianças estão crescendo e desenvolvendo. Esta proposta de programa de formação do Pediatra foi aprovada pela CNRM em julho de 2013 e iniciou sua implantação em 2014, tornando-se obrigatório em 2019. Assim sendo, o novo currículo está implantado há apenas 7 anos, o que é um tempo relativamente curto para que os hospitais de ensino se reorganizem, não só do ponto de vista estrutural criando os serviços necessários para serem uma plataforma de ensino que contemple toda o currículo ou realizarem as eventuais parcerias para complementar todos os serviços necessários para atender o novo currículo, como também admitirem os preceptores aptos para supervisionarem esse novo programa. De todo modo, pesquisas locais com algumas Comissões de Residência Médica realizadas com os egressos do novo programa revelaram uma satisfação maior e um melhor preparo para atender a demanda atual no campo de Pediatria. Uma pesquisa nacional sobre a formação do Pediatra seria necessária para responder não só a sua questão, mas principalmente para avaliarmos as eventuais dificuldades que os serviços enfrentam para realizar o atual programa de residência médica em Pediatria e sugerirmos possíveis soluções.
BOLETIM ABP: A senhora já recebeu diversas homenagens e condecorações. Como é ser reconhecida pelos seus pares?
SANDRA GRISI: Realmente, tive a oportunidade e as condições para realizar muitos trabalhos com repercussão, tanto na assistência, quanto no ensino. O reconhecimento destes trabalhos e de seus resultados devo creditar à benevolência de meus pares que invariavelmente mostram suas generosidades por meio destes prêmios e homenagens. Estas ocasiões me deixaram muito feliz, mas principalmente agradecida aos meus alunos e colegas que estiveram comigo nesta trajetória e tornaram possível a realização dos projetos. É muito gratificante e estimulante ter seu trabalho reconhecido e eu tive algumas oportunidades de sentir essa emoção.
BOLETIM ABP: A senhora foi a primeira presidente mulher da ABP. Como é ser parte desse marco e como acha que isso ajuda na inserção de pediatras mulheres em cargos de liderança, não só na Academia, mas nas instituições médicas em geral?
SANDRA GRISI: Assistimos, desde o século passado, à luta feminina pela igualdade de direitos e, sem dúvida, tem sido uma das transformações sociais mais profundas da história moderna. Embora existam conquistas inegáveis em diversos setores, o cenário ainda é de disparidade. Apesar da existência de leis que orientam e em certas situações até garantam a igualdade, persiste uma cultura de patriarcado mais evidente em alguns países e menos em outros. O que realmente precisa acontecer, e já está acontecendo, é uma mudança cultural que garanta que a igualdade de gênero saia do papel e se torne prática cotidiana. Na minha experiência, realmente senti, no início da minha carreira, barreiras em razão do meu gênero, mas no transcorrer da minha trajetória de meus 50 anos de profissão tive a felicidade de, também, assistir e sentir essa mudança, que foi muito grande em minha área, felizmente.
Em relação a ser a primeira presidente da Academia Brasileira de Pediatria, talvez tenha, sob esse aspecto, algum significado para a sociedade em geral, mas internamente, quero dizer que dentro da ABP, nunca houve sequer algo que pudesse lembrar sentimentos ou comportamentos discriminatórios. A ABP é uma entidade que respeita todos os direitos e valores humanitários. Sobre estes aspectos seus membros são irreparáveis, precursores nesta seara e apregoam a igualdade sob todos os ângulos. Como pediatras valorizam a vida e o ser humano, honram a pediatria ao agirem sempre independentemente de classe social, sexo, idade, raça, etnia, religião, orientação sexual, cultura, características físicas, sensoriais ou motoras.
BOLETIM ABP: No modo geral, a senhora acha importante o envolvimento do pediatra em movimentos associativos? Por quê?
SANDRA GRISI: Considero de uma importância máxima participar de movimentos associativos profissionais porque é a melhor forma de fortalecer uma carreira e sua classe. As entidades associativas e aqui uso como exemplo a Sociedade Brasileira de Pediatria, funcionam como uma plataforma de apoio mútuo, oferecendo benefícios que vão muito além do currículo. Vou citar algumas ações que a SBP, como uma associação de classe oferece, e que são fundamentais para os Pediatras e para a carreira na Pediatria: defesa de direitos e representatividade; networking e parcerias; capacitação e atualização; treinamentos, workshops e cursos de especialização; credibilidade e identidade. Em resumo, a união através do associativismo transforma demandas individuais em conquistas coletivas, gerando competitividade e valorização para todos os envolvidos.
BOLETIM ABP: Se pudesse dar um conselho para a Sandra do início da carreira, qual seria?
SANDRA GRISI: Essa pergunta é muito fácil para eu responder porque a Pediatria, como já disse anteriormente, me trouxe felicidade e realização, e sendo assim eu sempre estímulo meus alunos de graduação a fazerem Pediatria.
No entanto, eu tenho algumas sugestões para quem está iniciando o exercício da Pediatria nos dias de hoje. Na sociedade atual, o pediatra tem um papel que transcende o diagnóstico de doenças, ele é um guia para o desenvolvimento humano integral. Por isso, ele tem que desenvolver algumas competências essenciais para exercer a Pediatria e atender à demanda das famílias hoje. Algumas delas são:
Ao encerrar essa entrevista eu retorno às palavras do Prof. Eduardo Marcondes quando definiu Pediatria em seu livro “Pediatria, Doutrina e Ação”: a Pediatria tem como objetivo final a criação de indivíduos fisicamente sadios, psiquicamente equilibrados e socialmente úteis” para reafirmar que o exercício da Pediatria é a demonstração de que a Medicina é uma arte tal como consta no Juramento de Hipócrates, que fazemos por ocasião das nossas formaturas.
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