Histórias da Pediatria

Da esperança ao Menino Jesus: a construção de um hospital pediátrico de excelência

Antônio Carlos Madeira de Arruda – Pediatra
Diretor do Hospital Municipal Infantil Menino Jesus – São Paulo (SP)

Há muito o Hospital Municipal Infantil Menino Jesus tem se firmado como um dos mais importantes centros médicos destinados ao atendimento pediátrico em nosso país. 

Além do seu papel na assistência, ele tem se destacado na formação de novos especialistas em pediatria e na realização e publicação de trabalhos científicos e teses de mestrado e doutorado, sempre reafirmando o compromisso original de seus idealizadores em constituir um hospital solidamente fincado sobre três pilares: a assistência, o ensino e a pesquisa.  

O sucesso do hospital foi construído passo a passo, graças à competência, determinação e compromisso de múltiplas gerações de médicos que sempre atuaram com dedicação e entusiasmo em prol de um bem maior: a saúde das crianças de nossa cidade, estado e país. 

Mas, ao lado da expertise médica e do atendimento carinhoso, sempre dedicados aos nossos pequenos pacientes, o hospital tem uma história muito bonita e nem sempre conhecida dos pediatras. E é essa história que, a pedido do meu grande amigo Dr. Mário Santoro e com muita alegria, eu compartilho com a comunidade pediátrica de todo o país.  

O Menino Jesus foi inaugurado em setembro de 1960, mas sua história remonta ao início do século XX, quando um grupo de médicos, expoentes da medicina paulista e brasileira, decidiu construir um hospital geral, privado e que atendesse com um padrão de excelência a população paulistana, que então crescia rapidamente e demandava serviços de saúde com mais qualidade do que existia na época. 

Esse grupo de médicos, capitaneado pelo Professor Doutor Antonio Bernardes de Oliveira forma uma sociedade civil com o intuito de construir um hospital com características e objetivos bem definidos: localização central, arquitetura moderna, ser um centro de excelência médica, formador de especialistas e que se dedicasse ao desenvolvimento de pesquisas na área médica. Após a captação de recursos para o financiamento da obra, em 13 de fevereiro de 1932, é lançada a pedra fundamental daquele que viria a ser o Sanatório Esperança Sociedade Anônima. 

O projeto foi entregue a um dos mais importantes arquitetos do país, Rino Levi, que concebeu a obra dentro dos mais modernos padrões técnicos e arquitetônicos da época. A construção passou a ser acompanhada com muito interesse por todos, tornando-se um marco referencial, pois, sua localização, na rua dos Ingleses, era um dos pontos mais altos da cidade e podia ser vista de muito longe.

Assim, em 6 de novembro de 1938, o novo hospital era inaugurado, com o nome de Sanatória Esperança. Simbolicamente no alto do edifício brilhava, nas 24 horas do dia, uma luz verde esmeralda, “a cor da esperança”, que representava a “união de toda a comunidade médica da cidade de São Paulo”. Inicia suas atividades e rapidamente passa a ser reconhecido como um hospital geral de excelente padrão.

Seu corpo clínico contava com nomes eminentes como Raul Briquet (obstetrícia), Jacques Tupinambá (oftalmologia), Cantídio Moura Campos (clínica médica), Antonio Carlos Pacheco e Silva (neurologia), Benedito Montenegro (cirurgia), entre outros de igual importância. 

Depois de um período inicial de sucesso, já ao final da década de 40, o hospital passou a enfrentar dificuldades financeiras crescentes, culminando com a dissolução da sociedade civil estabelecida, o que fez com que o Dr. Bernardes de Oliveira, em 1950, oferecesse o hospital ao senhor Lineu Prestes, então prefeito da cidade. 

Após um longo processo de tratativas e negociações, finalmente foi concluído o processo da municipalização. Com a desapropriação do prédio, os gestores da Prefeitura Municipal de São Paulo, decidiram que o hospital seria “integralmente destinado ao atendimento de crianças de zero a 11 anos, 11 meses e 29 dias”. 

O nome escolhido foi Hospital Infantil Esperança, mas que não prevaleceu por muito tempo e já em 21 de setembro de 1960, sob a gestão do prefeito Dr. Adhemar de Barros, o hospital pediátrico é inaugurado com o nome que conhecemos: Hospital Municipal Infantil Menino Jesus.  

Agora o desafio era grande: Criar um hospital infantil que honrasse a pediatria paulista e brasileira e mantivesse os pilares sobre os quais o Sanatório Esperança foi edificado: assistência, ensino e pesquisa. A direção do hospital buscou contato com as faculdades de Medicina da época: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e a Escola Paulista de Medicina (UNIFESP). A integração do Menino Jesus com estas duas instituições foi extremamente importante para que o hospital constituísse um corpo clínico altamente qualificado e pavimentasse o caminho para importantes conquistas que serviriam de exemplos aos pediatras de todo o país. O número de médicos notáveis que fizeram parte do seu corpo clínico é muito grande; cito alguns expoentes da pediatria que atuaram, muitos ainda atuam no Menino Jesus: Werther Brunow de Carvalho, Sandra Grisi, Gilda Porta, Paulo Chapchap, Neiva Damasceno, Debora Handfas Gejer, Pierre Balogh, Aline da Graça Fevereiro, José Carlos Milaré, Sulim Abramovici, Fernando Manoel Freitas de Oliveira, Silvia Luporini, Maria Ignes Saito, Vanda Benini, Toshio Matsumoto, Daleth Rodrigues Scaramuzzi, Sonia Regina Testa Ramos, Roberto Guarniero, Flavio Trigo, Anuar Mitre,  Sergio Schettini, Ricardo Antonio Bertacchi Uvo e tantos outros, igualmente importantes, que ajudaram a criar e manter um hospital onde as marcas principais fossem o cuidado e o acolhimento. Membros de nossas importantes sociedades pediátricas como SBP e SPSP também trabalharam no nosso hospital e contribuíram para que chegássemos onde estamos hoje. Cito o Dr. Mario Santoro, Dr. Sulim Abramovici, Dr. Mário Roberto Hirschheimer, Dr. Clóvis Constantino, com os quais tive o privilégio de partilhar trabalho e amizade ao longo dos 45 anos em que atuei no Menino Jesus. Com pessoas tão qualificadas o hospital se manteve atualizado e na vanguarda da pediatria brasileira. Em 1972, apenas 12 anos após sua criação, num gesto de ousadia e pioneirismo, o hospital criou o Programa de Residência Médica em Pediatria, um dos primeiros fora do âmbito das universidades. Hoje, são vários os programas de Residência Médica: pediatria, cirurgia pediátrica, terapia intensiva e gastroenterologia. O Menino Jesus continua com sua missão de entregar à sociedade especialistas aptos a cuidar de nossas crianças em suas múltiplas necessidades. 

Esse pioneirismo, sempre presente na história do hospital, foi reafirmado na década de 90, quando permitiu a presença de familiares junto às crianças internadas na unidade de terapia intensiva durante as 24 horas do dia. Foi o primeiro hospital do país a fazê-lo. As crianças internadas em enfermaria já contavam com esse benefício desde a década de 80 dentro do programa Mãe Participante.

Em 2002, preocupados com a questão do atendimento dos adolescentes, que dificilmente conseguiam atendimento adequado em hospitais gerais, numa iniciativa da Dra. Debora Handfas Gejer, estendemos a faixa etária assistida de 12 para 18 anos de idade, garantindo aos adolescentes atenção especializada no Menino Jesus. Mais uma marca que, há mais de 20 anos, reafirmava nosso pioneirismo. Fomos seguidos por várias instituições em nossos passos, embora vários ainda limitem o atendimento até os 14 ou 16 anos. Em outubro de 2008, a Prefeitura Municipal de São Paulo passou a administração do hospital ao Instituto de Responsabilidade Social Sírio Libanês, dentro do modelo das Organizações Sociais de Saúde. A partir de então ocorreram grandes transformações. O prédio, envelhecido pelo tempo, começou a ser recuperado lentamente, andar por andar, pois, o funcionamento continuou integral enquanto as obras aconteciam. Ao lado da recuperação estrutural, a parceria com o Hospital Sírio Libanês permitiu que novas e modernas ferramentas de gestão fossem incorporadas e novos protocolos e diretrizes assistenciais instituídos. Os avanços foram significativos: novos programas foram criados, como o de Transplante Hepático em crianças e adolescentes, atendendo pacientes de todo o país.

Outro programa, fruto da parceria com o Hospital Sírio Libanês, é o de Reabilitação Intestinal, também de âmbito nacional e que atende crianças com a chamada síndrome do intestino curto. Esses pacientes que, praticamente, não possuem intestino e que morriam ainda na primeira infância, estão sendo tratados com a perspectiva, que já é uma realidade, de ganharem vida longa e com qualidade.

Além desses programas, o hospital também oferece possibilidades de tratamentos para muitas doenças que acometem o paciente pediátrico. Malformações congênitas são tratadas com muito sucesso no hospital. É o caso do programa das Fissuras Lábio Palatinas, em que o Menino Jesus é a única referência da Secretaria Municipal de Saúde para o tratamento dessa anomalia. O mesmo ocorre com crianças portadoras do pé torto congênito, anemia falciforme, síndrome nefrótica, alergia ao leite de vaca, hipospádia, diabetes, todos os atendimentos estruturados em programas e com linhas de cuidados estabelecidas. O hospital tem um programa destinado à crianças que fazem xixi na cama após os 5 anos de idade.

Esse último programa, que perto dos outros pode parecer de menor importância, é na verdade de grande importância para os pequenos e seus pais e deixa clara a preocupação do hospital com o bem-estar físico e emocional de seus pacientes.

Em 2018, fomos um dos primeiros hospitais públicos, 100% SUS, a receber a acreditação da O.N.A. (Organização Nacional de Acreditação), que reconheceu a qualidade e segurança do trabalho realizado no hospital. Essa acreditação atingiu o nível 2 (Pleno) em 2020 e o nível 3 (Excelência) em 2022. Ainda em 2022, o hospital foi reconhecido pela Organização Panamericana de Saúde e pelo IBROSS como um dos melhores hospitais públicos do Brasil. Em 2024 e 2025, fomos incluídos no ranking da Revista Newsweek como um dos melhores hospitais especializados do mundo.

O que nos trouxe muita alegria, mas também muita responsabilidade, pois nosso ofício é garantir qualidade no cuidado e segurança para as crianças e adolescentes que buscam no Menino Jesus a recuperação de sua saúde. Hoje, janeiro de 2026, sob a direção da Dra. Jamile Menezes Brasil, médica que começou sua trajetória no Menino Jesus, em fevereiro de 2010, quando iniciou sua formação como médica residente, o hospital segue com a mesma qualidade, honrando seus idealizadores e mantendo sólidos os 3 pilares por eles pensados: assistência, ensino e pesquisa

Cumpre ainda mencionar os primeiros diretores do hospital, responsáveis pelos passos iniciais que nos levaram a concretização de seus ideais: promover a saúde de nossas crianças. Nomes como Cornélio Pedroso Rosenburg, Samuel Schwartzman e Washington Garbin foram essenciais na consolidação do hospital como um centro pediátrico de excelência.

Quanto a mim, só tenho agradecimentos por ter passado quase toda minha vida profissional dentro desta instituição. Lá atuei por 45 anos, primeiro como médico do pronto-socorro depois como preceptor da enfermaria e nos últimos 24 anos como diretor, o que em muito me envaidece e enche de orgulho.