Má qualidade do ensino médico faz cair nível de candidatos ao TEP, lamenta coordenador do CEXTEP da SBP

Dr. Hélcio Villaça Simões trabalha na avaliação dos pediatras que se candidatam para obter o Título de Especialista (TEP) da SBP /Foto: Alexandre Durão -

Homenageado, em junho, pelo Conselho Superior da Sociedade Brasileira de Pediatria pelo seu trabalho de anos à frente da coordenação da Comissão Executiva do Título de Especialista em Pediatria (CEXTEP) da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o dr. Hélcio Villaça Simões trabalha na avaliação dos pediatras que se candidatam para obter o Título de Especialista (TEP) da SBP. Para ele, esse trabalho de qualificação profissional contribui para o melhor atendimento na saúde das crianças e adolescentes.

Em entrevista ao SBP Notícia, ele falou sobre a qualidade do ensino médico no Brasil atualmente, fez um parâmetro em relação ao passado e criticou a falta de fiscalização para reduzir a proliferação de escolas médicas no País. Não é por acaso que foi reconhecido por seus pares pela excelência de seu trabalho: “Me senti muito emocionado porque esse é o meu trabalho. Vejo essa homenagem como um reconhecimento desse trabalho que a gente fez durante todos esses anos, com dedicação e carinho”, disse. Leia abaixo a íntegra da entrevista, que traz uma relevante reflexão sobre o ensino da medicina e da pediatria no Brasil.

SBP Notícias - Como era o nível dos candidatos ao título de especialista da SBP há 18 anos e como está hoje?

Dr. Hélcio Villaça - Em relação ao nível dos candidatos, eu acho que houve um declínio em decorrência da perda na qualidade do ensino e na formação dos novos profissionais em relação ao passado. Vários fatores contribuem para isso:  como o número imenso de escolas em graduação de Medicina se proliferando a partir de 2003. Nesse mesmo ano, tínhamos 102 escolas de Medicina no País. Em 2014, esse número mais que dobrou e chegou a 216. No final de 2016, eram 271 escolas de graduação em Medicina, muitas delas sem condição, sem corpo docente qualificado, sem hospital escola. Essa é uma situação difícil. Outro problema é que a residência em pediatria – que é o principal pré-requisito para a inscrição na prova do Título Especialista em Pediatria (TEP) – também está com nível ruim em muitos estados.

SBPN - E a qualidade de ensino médico no Brasil: o que mudou em relação ao passado? O que precisa mudar?

HV - O que precisa mudar é exatamente essa questão citada anteriormente. Acho que os órgãos que têm que fiscalizar, como o Ministério da Educação, por exemplo, não o faz. Além disso, a proliferação de escolas médicas é um problema meramente financeiro. O que interessa é abrir escola porque dá dinheiro. Infelizmente é isso que vemos. É preciso rever essa questão, pois não é isso [a mensalidade] que qualifica uma escola médica. O Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Médica Brasileira (AMB) têm uma longa luta contra isso, mas está complicado porque entram em cena o interesse financeiro e o interesse político.  O pensamento de várias pessoas é esse: vou abrir uma escola de medicina na minha cidade, mesmo que a cidade seja pequena, que não tenha hospital escola, que não tenha um centro de saúde decente onde os alunos possam fazer treinamento. Essa pessoa quer uma escola de medicina na cidade dele. Então, esse é o pensamento de muitos políticos que, infelizmente, levaram a essa situação gravíssima que a gente está vivendo. Até mesmo as próprias universidades públicas estão passando por uma situação muito difícil.

SBPN - Quais dicas o senhor dá aos médicos que pretendem fazer o TEP?

HV - A residência é muito importante como um elemento de qualificação dos profissionais que estão recém-formados. Fazer uma boa residência é fundamental, assim como, se dedicar, acompanhar os casos, dar os plantões necessários, etc. Existem Programas de Residência em que os alunos executam um trabalho a parte. Isso é um absurdo, pois tem que ter dedicação exclusiva. O residente tem que trabalhar supervisionado, pois é um treinamento em serviço que ele está recebendo. Não pode trabalhar sozinho, mas o que vemos em muitos lugares são residentes dando plantão sem supervisão, fora do horário da residência, o que está completamente errado, mesmo eles já sendo médicos formados. Então, tem que haver fiscalização e compromisso com a residência porque é fundamental, uma vez que o primeiro elemento de qualificação do pediatra que realmente almeja entrar no mercado de trabalho é se qualificar bem. Uma boa residência dá um know-how muito importante.

SBPN - Como o senhor se sentiu ao receber a homenagem durante o Conselho pelos 18 anos de trabalho à frente do CEXTEP?

HV - Me senti muito emocionado porque esse é o meu trabalho. Eu entrei pela primeira vez no TEP em 1999. Teve uma breve interrupção, pois precisei me afastar para operar o joelho e colocar prótese. Então, fiquei um período entre dois e três anos afastado, dentro desses 18 anos. É um trabalho que sempre me gratificou muito porque se você está avaliando os pediatras, e está dando para eles a qualificação que precisam, trabalha em prol da saúde da criança e do adolescente. Vejo essa homenagem como um reconhecimento dessa atividade que a gente fez durante todos esses anos, com dedicação e carinho. Afinal, sempre gostei de atuar junto aos pediatras, aos alunos de graduação, à residência na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). 


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