Médicos alertam para riscos da desinformação sobre vacinas

Em 2019, foram confirmados aproximadamente 10.500 casos de sarampo no Brasil. Além disso, outras doenças graves – como a poliomielite e rubéola – estão sob o risco de ressurgirem entre a população. Um dos principais motivos que explicam esse fenômeno é a desinformação a respeito das vacinas, ao menos, é o que indica a pesquisa “As Fake News estão nos deixando doentes?”, feita pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e pela ONG Avaaz.

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Segundo o estudo, aproximadamente 67% dos brasileiros acreditam em ao menos uma afirmação imprecisa sobre vacinação. Para chegar ao resultado, as instituições encomendaram ao IBOPE uma pesquisa com cerca de 2 mil pessoas acima de 16 anos, em todos os estados e no Distrito Federal, respeitando as características demográficas do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%.

Para a coordenadora de campanhas da Avaaz, Nana Queiroz, o Brasil vive uma epidemia de desinformação sobre vacinas. “As grandes plataformas precisam mostrar correções às pessoas expostas a essas desinformações. E se não o fizerem por iniciativa própria, o governo precisa garantir que o façam — é uma questão de saúde pública", disse.

PEDIATRIA - De acordo com a presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), dra. Luciana Rodrigues Silva, são diversos os fatores que contribuem para a disseminação de notícias falsas e, consequentemente, para o declínio dos índices de cobertura vacinal do País. Na sua avaliação, as Fake News ganham força à medida que se intensifica a precarização da assistência pública em saúde, especialmente a partir da redução do número de pediatras na Atenção Primária.

“Além da atuação dos grupos antivacina, que disseminam mentiras e reforçam boatos, um ponto chave para a queda das taxas de imunização é a o atual modelo de saúde pública – adotado já há alguns anos – que não prevê o trabalho de puericultura. Toda criança deve ser acompanhada por um pediatra, desde o nascimento até a adolescência. Pois, é justamente nas consultas de rotina que as famílias são corretamente orientadas – inclusive sobre a importância indispensável das vacinas para a prevenção de doenças – e podem esclarecer todas as dúvidas”, afirmou.

Segundo explica a dra. Luciana Silva, quando a população deixa de ser informada por especialistas, surgem dúvidas sobre possíveis efeitos adversos e eficácia das vacinas. “Nesse vácuo, ganham notoriedade as mais diversas notícias sem qualquer fundamento científico ou conexão com a realidade”, salientou.

DECLÍNIO VACINAL – O trabalho também analisou a atitude em relação à vacinação. A grande maioria (87%) disse nunca ter deixado de se vacinar ou de vacinar uma criança sob seus cuidados. Embora o índice possa parecer bom à primeira vista, quando extrapolamos os 13% de não-vacinantes para toda a população com 16 anos ou mais, ele passa a representar um contingente de mais de 21 milhões de pessoas.

Há, ainda, evidências de que as notícias falsas tenham impactado a decisão de não se vacinar. Entre os que não se vacinaram, 57% relataram pelo menos um motivo considerado como desinformação pelos profissionais da SBIm e pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os mais comuns, nesta ordem, foram: “não achei a vacina necessária (31%)”; “medo de ter efeitos colaterais graves após tomar uma vacina (24%)”; “medo de contrair a doença que estava tentando prevenir com a vacina (18%)”; “por causa das notícias, histórias ou alertas que li online (9%) e “por causa dos alertas, notícias e histórias de líderes religiosos” (4%).

Em todo o Brasil, desde 2016, ocorre de modo mais acentuado uma redução progressiva da cobertura de diferentes vacinas do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Neste ano, os números também estão abaixo dos 95%, taxa ideal para a maioria das vacinas.

“As pessoas das gerações mais jovens, abaixo dos 30 anos, não conviveram com muitas das doenças infectocontagiosas mais graves justamente por causa da eficácia das vacinas. Existe uma falsa sensação de segurança de que essas doenças não têm como retornar. No entanto, novas epidemias somente serão evitadas se a população continuar respeitando as recomendações do PNI”, reforçou a presidente da SBP.

MÍDIAS SOCIAIS - Foi pedido aos entrevistados que apontassem até três fontes de informação nas quais mais veem ou ouvem informações sobre vacinas. A mídia tradicional, que inclui televisão, rádio, jornais e sites de notícias da grande imprensa, foi a mais mencionada (68%). Mas em segundo lugar estavam as redes sociais, como o Facebook, YouTube, Instagram, além do WhatsApp e demais aplicativos de mensagens instantâneas (48%) — essas fontes se mostraram mais recorrentes que o Ministério da Saúde ou médicos, por exemplo, que aparecem em quarto e quinto lugar respectivamente.

O impacto exato das mídias sociais e aplicativos é complexo, tendo em vista que conversas entre amigos e familiares — eventualmente pautadas por fake news — constam na lista de principais fontes. Mas chama a atenção o fato de que, em todos os aspectos aferidos pelo estudo, as atitudes e percepções negativas, bem como a desinformação, foram mais comuns entre os que citaram as plataformas como fonte de informação sobre vacinas.

MOVIMENTO ANTIVACINA - Outro ponto investigado foi a frequência com que os brasileiros têm contato com conteúdo contrário à vacinação nas redes sociais. Aproximadamente 38% dos que responderam à pesquisa disseram receber mensagens negativas com alguma regularidade, ao passo que 59% responderam que raramente recebem ou nunca receberam.

O prejuízo no que diz respeito à visão sobre as vacinas é claro: 72% dos que acreditam que as vacinas são parcialmente inseguras e 59% daqueles que pensam que as vacinas são totalmente inseguras afirmaram que já receberam notícias negativas sobre elas em suas redes sociais e serviços de mensagens.

É importante destacar que os profissionais de saúde e Ministério da Saúde/governo têm um papel relevante ao inspirar confiança nas vacinas. Pessoas que os têm como referência mostram-se mais seguras, ainda que tenham contato com fake news. As categorias, no entanto, ocupam apenas o quarto e o quinto lugar na lista de fontes de informação, respectivamente.

"A vacinação é uma atividade de extrema importância para a saúde pública, portanto o governo deve se esmerar para manter as equipes atualizadas. É fundamental que os profissionais da saúde estejam preparados para responder rapidamente às dúvidas da população diante de situações que não têm o menor embasamento científico", avalia a vice-presidente da SBIm, Isabella Ballalai.

“Além disso, é necessário falar mais sobre vacinação. Em geral, médicos que não tratam crianças demonstram certa resistência. Alegam falta de tempo ou outras prioridades. Perdemos inúmeras oportunidades dessa forma”, lamenta.

DESINFORMAÇÃO IMPORTADA - Depois que a pesquisa IBOPE mostrou sinais claros de que notícias falsas sobre vacinas influenciam os brasileiros, a Avaaz sentiu a necessidade de conduzir uma investigação para descobrir quais eram essas notícias falsas e de onde elas vinham. A descoberta mais reveladora foi: o discurso antivacinação que circula no Brasil é um problema importado dos Estados Unidos.

Quase metade da amostra de fake news corrigidas pelos verificadores brasileiros foi traduzida literalmente ou com base em informações originalmente publicadas, em inglês, nos Estados Unidos. O site "Natural News" é a fonte original de 32% da amostra e representa 69% do conteúdo não brasileiro. Os outros conteúdos eram nativos do país.

"Além disso, há evidências de que o Natural News esteja servindo de inspiração para sites e influenciadores brasileiros que passaram a vender produtos naturais e 'curas milagrosas' ao lado de artigos antivacinação e que inspiram desconfiança na ciência tradicional", revela Nana.

O conteúdo desinformativo analisado pela Avaaz teve grande alcance no Brasil. A equipe começou com uma amostra original de 30 notícias falsas já desmembradas por agências de verificação de fatos, incluindo o Ministério da Saúde do Brasil. Esses 30 conteúdos se multiplicaram nas redes: foram compartilhados em YouTube, Facebook, WhatsApp e sites - atingindo pelo menos 2,4 milhões de visualizações no YouTube, 23,5 milhões de visualizações no Facebook (apenas vídeos) e 578.000 compartilhamentos no Facebook. Em uma análise mais aprofundada dos vídeos do YouTube, foram encontrados 69 dos principais vídeos antivacinação que atingem coletivamente 9,2 milhões de visualizações e 40.000 comentários.

Utilizando programas desenvolvidos pela Avaaz para os fins deste estudo, foram coletados 1.613 links de artigos antivacinas publicados em sites. O banco de dados inclui título do artigo, data da publicação, categoria, conteúdo, link de cada publicação e uma captura de tela da página inteira.

A Avaaz disponibilizará o conteúdo para instituições, acadêmicos e funcionários do governo. A expectativa é a de que isso incentive novos estudos sobre o assunto e ajude as instituições governamentais, as sociedades científicas, as comunidades acadêmicas a elaborarem campanhas de comunicação mais efetivas para informar o brasileiro e combater a desinformação.

*Com informações da assessoria de comunicação da SBIm


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