Premissas/Diretrizes



O ensino da Pediatria, ou melhor, o processo de ensino-aprendizagem da pediatria na graduação em medicina, busca atualmente alcançar as competências necessárias para o egresso do curso médico realizar um bom atendimento à criança e ao adolescente. Em 2002, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) organizou o estudo “Ensino de pediatria em escolas de medicina da América Latina”, com participação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), com levantamento de dados nas Unidades de Pediatria de 194 escolas médicas. O enfoque da OPAS, à época, era a implantação da Estratégia Atenção Integrada das Doenças Prevalentes na Infância (AIDIP), com objetivos de diminuição da morbi-mortalidade (Benguigui, 2003). O estudo apresentou resultados interessantes sobre o processo de ensino e aprendizagem em pediatria, com recomendações para futuros estudos:

  • Existe uma heterogeneidade entre as escolas médicas quanto a aspectos organizacionais e estruturais, mas esta heterogeneidade é menor nos aspectos relacionados ao ensino. Todas as FEM abrangem o ensino das doenças prevalentes da infância e aspectos de promoção e prevenção relacionados à atenção das crianças. O ensino é feito principalmente em Pediatria.
  • No que se refere à descrição da metodologia de ensino e a incorporação das tendências atuais sobre metodologia da educação médica, é necessário ampliar o conhecimento.
  • As escolas médicas realizam atividades práticas, onde a tendência atual é realizar uma maior prática clínica no ambulatório e na comunidade no início do curso e incluí-la na avaliação.
  • Há um contraste entre a distribuição do tempo de prática dos estudantes durante os cursos de pediatria e a atividade que os formados (egressos) desempenhavam com maior frequência, conforme figura apresentada a seguir.


Com base em estudos anteriores e recomendações que definem competências do egresso, ou seja, conhecimentos necessários na formação do médico ao término do curso de graduação, definimos algumas premissas que devem ser consideradas para estruturação do ensino em pediatria, embasadas em Matrizes de competências. Foram considerados, principalmente, o Revalida (Brasil, 2009); documento sobre as Competências do Internato (ABEM, 2013) e propostas discutidas em estudos sobre ensino de pediatria. Anexa, segue matriz detalhada de competências, lembrando que este deve ser processo dinâmico para o aprimoramento dos cursos de medicina.

  • Faixa etária de 0 a 19 anos, com destaque à primeira infância e seu papel no desenvolvimento integral do ser humano
  • Centrado em competências para promover o crescimento e desenvolvimento normais de crianças e adolescentes, inseridos em seu ambiente de vida, reconhecendo as suas necessidades de saúde, com uso do raciocínio clinico e avanços da ciência para promover a saúde, prevenir, diagnosticar e tratar os principais agravos e doenças prevalentes no Brasil e no contexto local, utilizando conceitos de risco e vulnerabilidade. Ainda, considerar como transversalidade em sua prática, sempre, a determinação social do processo saúde e doença e o processo de gestão da saúde, com destaque para o  SUS.
  • A semiologia pediátrica deve ser tratada com sua especificidade e estar presente de forma independente da semiologia do adulto. Na relação médico – paciente – família dar ênfase ao raciocínio clinico, às habilidades de comunicação, com abordagem centrada na pessoa, na interlocução com pacientes e/ou seus responsáveis legais, pautado nos princípios éticos e humanísticos.
  • Ensino nos diferentes níveis de atenção à saúde – destaque à atenção básica, Ambulatório geral e pediatria (Hospital geral ou hospital universitário), unidade de internação de hospital geral (ou Enfermaria Geral de Pediatria de hospital universitário), Urgência e Emergência, Neonatologia (Alojamento Conjunto e Sala de Parto). Aponta-se a obtenção de competências na atenção e na educação em saúde, norteados pelo principio da integralidade da atenção inserido no processo de gestão da saúde, com ênfase para o SUS.   
  • Supervisão nas atividades práticas realizadas por pediatra, respeitando o trabalho em equipe multiprofissional, incentivando as habilidades de comunicação entre profissionais da saúde, e entre esses e os usuários /pacientes buscando a integralidade da atenção à criança e ao adolescente.   
  • O ensino de pediatria deve corresponder a 10% da carga total do curso (em torno de 700 horas ou mais), preferencialmente de forma contínua e progressiva até o final do curso.
  • Avaliação – considerar os níveis de competência e os diferentes tipos de avaliação (diagnóstica, formativa e somativa). Verificar as habilidades cognitivas, clínicas e comportamentais. Diferentes instrumentos devem ser utilizados para avaliar diferentes níveis de competência.      

Especificamente no internato, são essenciais os seguintes cenários:

  • Atenção básica – maior abrangência, resolubilidade e integralidade da atenção para doenças agudas e crônicas, visitas domiciliares, trabalho em equipe multiprofissional, ações educativas abrangendo integração 
  • Ambulatório geral (hospital universitário) – definir papel no serviço: retorno de enfermaria, retorno de PS, função de articular múltiplas especialidades
  • Serviço de internação – secundário e/ou terciário na dependência da complexidade do serviço de neonatologia – secundário (sala de parto + alojamento conjunto); ambulatório de egresso da maternidade e reanimação (laboratório de habilidades)
  • Emergência – porta e retaguarda, reanimação (laboratório de habilidades), trauma, queimados, SAMU, centro de intoxicações.

 

Referências bibliográficas

  1. Puccini RF. Histórico e perspectivas do ensino de pediatria no Brasil. In: Silva LR. Diagnóstico em Pediatria. Rio de Janeiro: Editora Guanabara – Koogan, 2009. P:22-27.
  2. Benguigui, Y
. Ensino de pediatria em escolas de medicina da América Latina Washington, D.C.: OPAS, © 2003.
60 p. ISBN 92 75 32400 X
  3. Brasil. Ministério da Educação. Secretaria de Ensino Superior. Ministério da Saúde. Secretaria da Gestão do Trabalho e Educação na Saúde. Matriz de correspondência curricular para fins de revalidação de diplomas de médico obtidos no exterior Ministério da Educação, Ministério da Saúde. – Brasília: MEC, MS, 2009.

 


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