Publicado/atualizado: janeiro/2026

Dóris Rocha Ruiz

Sonia Groisman

Luciana Rodrigues Silva

Dirceu Solé             

GT de Saúde Oral                                                          

  • Qual é a relação entre os primeiros mil dias e a saúde oral?

Os primeiros 1.000 dias de vida incluem os 270 dias da gestação (da concepção até as 40 semanas) mais os 730 dias após o nascimento (até os dois anos de idade). Esse período é chamado pela literatura científica como uma “janela de oportunidades”, pois é um momento especial para orientar as famílias sobre hábitos e estilo de vida saudáveis. É essencial enfatizar que o crescimento e desenvolvimento que ocorrem nesses primeiros anos de vida vão influenciar toda a vida do indivíduo, desde a saúde física, emocional, cognitiva e social. Quando a saúde é cuidada de forma integral – incluindo a saúde da boca e do corpo – os benefícios aparecem tanto no presente quanto no futuro, trazendo resultados positivos para as crianças, a família e toda a sociedade.

  • Quais são os cuidados odontológicos essenciais nos primeiros 1.000 dias?

Pré-natal odontológico: consultas preventivas com o cirurgião-dentista a cada trimestre gestacional para que a mãe tenha uma boa saúde oral com repercussão adequada para seu filho;

Exame oral do recém-nascido: um exame deve ser realizado na maternidade, na UTI neonatal, ou por um odontopediatra após a alta hospitalar;

Atendimento odontológico aos lactentes: após o nascimento, as consultas devem ser agendadas conforme a necessidade, mas é fundamental uma consulta ao odontopediatra logo que o primeiro dente de leite nascer ou, no máximo, antes do primeiro aniversário da criança. Na sequência desses primeiros 1.000 dias de vida deve-se continuar o monitoramento odontológico preventivo específico à infância e adolescência.

  • Por que a gestante deve realizar o pré-natal odontológico?

O pré-natal odontológico é fundamental para a saúde da mãe e do bebê. Durante as consultas, o dentista orienta como cuidar da saúde oral da mãe e do bebê, para prevenir ou tratar as doenças orais. Cada vez mais pesquisadores no mundo inteiro alertam que infecções e processos inflamatórios de origem bucal, muitas vezes assintomáticos, como a doença periodontal, podem determinar intercorrências gestacionais indesejadas como: diabetes gestacional, pré-eclâmpsia e parto prematuro, além de interferir diretamente com a autoestima, o bem-estar e a qualidade de vida da gestante.

  • Como deve ser o exame odontológico neonatal?

Deve iniciar com uma criteriosa conversa com os pais sobre o histórico familiar e do recém-nascido. Na sequência deve ser realizado um minucioso exame com ênfase na avaliação da cabeça, do pescoço, da face e todas as estruturas da boca. Após o exame, os pais devem receber as orientações sobre alimentação do bebê, hábitos que podem prejudicar a saúde oral (como uso de chupetas); hábitos de higiene oral; prevenção de acidentes orofaciais e a importância de consultas odontológicas preventivas ao longo da primeira infância.

  • Qual é a importância do aleitamento materno para a saúde oral?

Há forte evidência científica que o aleitamento materno seja considerado o pilar da promoção da saúde oral infantil. O leite materno nutre em uma fase essencial da formação dentária. Sua presença na saliva promove o equilíbrio do microbioma oral e a proteção da cavidade oral. O ato de amamentar é ideal para estimular ossos e músculos da boca e face e estabelecer o padrão adequado das funções orais e da respiração nasal, o que contribui para o crescimento e desenvolvimento harmônico orofacial. O pediatra deve sempre pedir que a mãe amamente o bebê para avaliar se a amamentação é feita de modo adequado e ajudar a mãe nas dúvidas que existirem.

  • Quais hábitos alimentares favorecem a saúde oral nos primeiros mil dias de vida?

A nutrição equilibrada da gestante é o primeiro passo para o bom desenvolvimento das estruturas orais do bebê, incluindo os dentes. O aleitamento materno exclusivo por seis meses e continuado até dois anos (ou mais) contribui para a saúde oral do bebê e ajuda a construir um sorriso saudável. Inclusive, durante a amamentação o bebê experimenta diferentes sabores através do leite materno, o que facilita a introdução de alimentos sólidos mais tarde. Portanto, não ofereça alimentos e bebidas contendo açúcares adicionados até os dois anos de idade. É importante que familiares, vovós, vovôs, tios e tias e cuidadores também entendam a necessidade de evitar o consumo de açúcar ao longo de toda a infância para evitar doenças, como: a obesidade, o diabetes e a cárie dentária.

  • Como deve ser a introdução alimentar para favorecer a saúde oral?

A introdução dos novos alimentos na dieta, além do leite materno após seis meses de idade é uma fase de progressivo aprendizado ao bebê. Isso não só ajuda a criança a aprender a mastigar, mas também contribui para o bom desenvolvimento da boca e da face, auxiliando no surgimento e posicionamento dos dentes de leite. É importante os pais ficarem atentos para que o bebê receba todos os nutrientes necessários. Durante a introdução alimentar devem seguir as recomendações do pediatra para que o bebê possa interagir e aprender a mastigar e engolir novos sabores, consistências e texturas alimentares de forma tranquila e segura. É recomendável oferecer alimentos in natura (naturais e frescos) e minimamente processados, evoluindo gradualmente de alimentos macios para mais firmes, respeitando o ritmo e aprendizado individual até que o bebê consiga comer alimentos sólidos como os da família.

  • Quais são as repercussões possíveis pelo uso de chupetas em bebês?

Os hábitos de sucção intensa e prolongada da chupeta, em longo prazo pode causar alterações significativas na forma do céu da boca, no posicionamento dos dentes e arcos dentários, na movimentação da língua, na postura dos lábios, na fala e ainda levar à respiração oral. O que aumenta muito a chance de problemas no sorriso e nas funções orais da criança. Idealmente não se deve oferecer chupeta aos bebês, e para aqueles que fazem uso, retirar o mais cedo possível.

  • Como cuidar da higiene oral do nascimento aos dois anos e vida?

Se o bebê for recém-nascido ou estiver na fase de lactente amamentado exclusivamente no peito, e ainda não tiver dentes, não se recomenda limpar a boca, pois o leite materno já oferece proteção em toda a cavidade oral. A higiene oral deve começar de forma regular, pela manhã e à noite, assim que o primeiro dente de leite nascer. Essa limpeza dos dentes, gengiva e da língua deve ser feita seguindo as orientações da odontopediatra, sempre com os movimentos da escova de maneira delicada e sem pressa. Utilizar escova de dentes infantil extra macia e uma quantidade pequena (equivalente ao grão de arroz) de pasta de dentes infantil contento flúor. Para evitar acidente e a ingestão indevida, guardar a escova e pasta de dentes longe do alcance do bebê.

  • Qual é a importância de manter uma rotina de consultas odontológicas preventivas ao lactente?

Manter uma rotina de consultas odontológicas ajuda a educar e promover a saúde oral da criança. Com o acompanhamento odontológico desde a infância o profissional poderá monitorar a erupção dos dentes, e o crescimento e desenvolvimento da boca e da face, prevenindo as doenças orais e o encaixe inadequado de dentes e arcadas dentárias. Vale ressaltar que as visitas regulares também criam um vínculo de confiança entre a família, o dentista e a criança, o que é primordial para o sucesso das ações preventivas. Estabelecer uma interlocução entre o pediatra e o odontopediatra é muito importante em prol da saúde oral da criança.

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