25/03/2026

A disseminação de vídeos nas redes sociais sugerindo uma suposta “epidemia de micropênis” em crianças acendeu um alerta entre entidades médicas brasileiras. Em nota conjunta, divulgada nesta quarta-feira, dia 25, a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Pediátrica (CIPE) contestam as informações e denunciam riscos à saúde infantil.

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Segundo as entidades, conteúdos virais têm incentivado pais e responsáveis a medir o pênis de crianças em casa e sugerem, de forma equivocada, a existência de micropênis em larga escala. Os vídeos também assustam pais ao afirmar que existe uma suposta “janela de oportunidade” para tratamento com testosterona e que, se ela não for aproveitada, o menino terá micropênis na vida adulta.

“As informações que circulam nas redes sociais não têm qualquer respaldo na medicina baseada em evidências e podem levar famílias a decisões perigosas. Não existe epidemia de micropênis”, afirma o presidente da SBU, Dr. Roni Fernandes. “Estamos vendo um movimento preocupante de banalização de diagnósticos complexos e de incentivo ao uso indevido de hormônios, o que pode trazer consequências graves e irreversíveis.”

As sociedades médicas reforçam que o micropênis é uma condição rara e que seu diagnóstico exige avaliação clínica criteriosa, realizada por equipe multidisciplinar especializada envolvendo pediatras, urologistas, cirurgiões pediatras, endocrinologistas pediatras, geneticistas e outros. A avaliação deve incluir: “exame físico adequado, análise do histórico de saúde da criança, avaliação do desenvolvimento puberal e, quando indicado, exames laboratoriais e genéticos”, diz a nota.

MEDIÇÕES CASEIRAS – Medições caseiras, além de imprecisas, podem gerar ansiedade desnecessária e levar a tratamentos indevidos. “A medição do pênis não é um procedimento simples. Ela exige técnica adequada, ambiente clínico e profissionais treinados. Quando feita de forma incorreta, pode resultar em erros frequentes e interpretações equivocadas”, explica a coordenadora do Departamento de Urologia Pediátrica da SBU, Dra. Veridiana Andrioli.

A médica é responsável por um estudo, feito em novembro de 2025, que avalia como pais e responsáveis percebem o desenvolvimento do genital masculino. Embora 48% dos entrevistados considerassem o tamanho do órgão sexual infantil dentro da normalidade, 24% acreditavam que ele estaria abaixo da média. Os médicos identificaram que, em geral, as medições feitas pelos cuidadores subestimavam o comprimento peniano em 2,5 a 3 centímetros. Na amostra avaliada não foi diagnosticado nenhum caso de micropênis.

“É importante deixar claro que o tamanho do pênis é praticamente estável dos 4 anos até o avançar na puberdade. Então um menino que ainda não entrou na puberdade terá ainda um pênis e os testículos com as mesmas características e tamanho dos anos iniciais da infância. Em muitos casos, a criança pode ter sobrepeso, alterações de formação da pele do pênis, o que dá a falsa impressão de que o pênis é pequeno”, explica Dra. Veridiana.

Conforme indica o presidente da SBP, Dr. Edson Liberal, diante de qualquer dúvida sobre o desenvolvimento da criança, a orientação é sempre buscar avaliação inicial com um pediatra. “Não se recomenda realizar medições em casa ou tomar qualquer decisão com base em informações de redes sociais”, orienta.

USO INDISCRIMINADO – Outro ponto de preocupação destacado na nota é o uso indiscriminado de hormônios em crianças. De acordo com as entidades, esse tipo de tratamento só deve ser indicado após investigação rigorosa e em situações específicas.

O coordenador do Departamento de Endocrinologia Pediátrica da SBEM, Dr. Luiz Cláudio Gonçalves de Castro, esclarece que o tratamento hormonal é uma ferramenta terapêutica segura e potencialmente transformadora, mas apenas quando há deficiência comprovada e indicação médica precisa. “O uso indevido de um hormônio, como a testosterona, em crianças sem diagnóstico clínico rigoroso pode acarretar efeitos adversos irreversíveis, como aceleração da maturação óssea, comprometimento da estatura final, antecipação da puberdade e interferência no equilíbrio hormonal do organismo”, alerta.

“Apenas o médico especialista, em avaliação clínica presencial e criteriosa, é capaz de diferenciar variações normais do desenvolvimento genital das condições que, de fato, requerem intervenção, especialmente considerando que o micropênis é uma condição rara”, completa Dr. Luiz Cláudio.

As sociedades também destacam que a ideia de uma “janela de oportunidade” rígida para tratamento, amplamente divulgada nas redes, é frequentemente apresentada de forma distorcida e simplificada, o que pode induzir decisões precipitadas por parte das famílias.

“É importante deixar claro que, isoladamente, o tamanho do pênis não é critério para concluir se o mesmo é normal ou não. Diante de qualquer dúvida, uma avaliação médica especializada é a melhor opção. Qualquer tratamento só traz benefício diante de uma real necessidade”, afirma o presidente da CIPE, Dr. Fábio Antonio Perecim Volpe.

Diante da gravidade da situação, as entidades informam que irão acionar órgãos como o Ministério da Saúde, a Anvisa e o Ministério Público para investigar possíveis irregularidades e coibir práticas que coloquem em risco a saúde infantil.