21/07/2026

Levantamento realizado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) coloca em xeque o mito de que a maior incidência de doenças respiratórias em crianças está diretamente relacionada à chegada do inverno (de junho a agosto). Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) revelam que o aumento desses quadros clínicos começa antes. Por exemplo, de 2008 a 2025, entre os menores de um ano, a média mensal de internações passou de 5.619, em fevereiro, para 16.369, em maio, ou seja, um aumento de 191%.

Segundo o presidente da SBP, dr. Edson Liberal, a análise reforça aquilo que a prática clínica observa todos os anos, demonstrando que esse comportamento é previsível e merece ações preventivas antecipadas. “Os dados mostram que não devemos esperar o inverno começar para reforçar os cuidados. O aumento das internações inicia ainda no outono e atinge principalmente os bebês, que apresentam maior vulnerabilidade para infecções respiratórias graves”.

Entre crianças de 1 a 4 anos, as hospitalizações também avançaram de modo significativo. A médica foi de 7.194 para 16.419, nos mesmos períodos, com uma alta registrada de 128%. Essas conclusões resultam do cruzamento de uma base em quase cinco milhões de internações de crianças menores de cinco anos registradas pelo SUS, ao longo de 17 anos. Os dados mostram que o aumento das internações é mais intenso entre os bebês, embora o pico sazonal resulte em volumes semelhantes de hospitalizações nas duas faixas etárias.

BRONQUIOLITE – Para o presidente do Departamento Científico (DC) de Infectologia da SBP, dr. Marco Aurélio Sáfadi, esse é um dos aspectos mais importantes revelados pelo levantamento. “Os bebês possuem vias aéreas menores, sistema imunológico ainda em desenvolvimento e menor reserva respiratória. Por isso, uma infecção que pode causar apenas sintomas leves em crianças maiores ou adultos pode evoluir rapidamente para dificuldade respiratória e necessidade de internação em um lactente”.

Os dados revelam outro aspecto importante. Além de crescerem mais rapidamente, as internações dos menores de um ano apresentam um perfil distinto das demais faixas etárias. Enquanto entre crianças de 1 a 4 anos, quase nove em cada dez hospitalizações do grupo analisado são registradas como pneumonia, nos bebês a bronquite aguda e a bronquiolite representam aproximadamente um terço das internações respiratórias.

Distribuição das internações respiratórias por diagnóstico (SIH/SUS, 2008–2026)

DiagnósticoMenores de 1 ano1 a 4 anos
Pneumonia64,2%88,2%
Bronquite aguda + bronquiolite33,6%8,5%
Influenza2,1%3,3%

Esse comportamento acompanha o perfil epidemiológico do Vírus Sincicial Respiratório (VSR), principal causa de bronquiolite em lactentes e um dos principais agentes responsáveis pelas hospitalizações respiratórias de lactentes durante a sazonalidade. Embora prematuros e crianças com doenças crônicas apresentem maior risco de evolução grave, a maior parte das hospitalizações por VSR ocorre em bebês previamente saudáveis, reforçando que toda criança pequena pode desenvolver formas graves da infecção. 

O levantamento, elaborado a partir das internações por influenza, pneumonia e bronquite aguda/bronquiolite, revela um padrão sazonal consistente ao longo de toda a série histórica. Após os menores volumes registrados no verão, as hospitalizações começam a crescer em março, aceleram em abril e atingem o pico entre maio e junho. A atenção aos dados pode ajudar no esforço de prevenção e tratamento dos casos, mesmo em casa.

SINAIS DE ALERTA – Pais e responsáveis devem redobrar o cuidado durante os meses de maior circulação dos vírus respiratórios, especialmente em bebês e crianças pequenas. Sinais como respiração rápida ou dificuldade para respirar (com afundamento das costelas ou da região do pescoço), chiado intenso, coloração arroxeada dos lábios ou das extremidades, sonolência excessiva, dificuldade para mamar ou ingerir líquidos e febre persistente podem indicar agravamento do quadro clínico. Diante de qualquer um desses sintomas, a recomendação é procurar atendimento médico imediatamente, pois o diagnóstico e o tratamento precoces são fundamentais para reduzir o risco de complicações.

Como a elevação das internações começa antes do inverno propriamente dito, o presidente do DC de Imunizações da SBP, dr. Eduardo Jorge da Fonseca Lima, destaca que as medidas preventivas também precisam ser antecipadas. Entre as principais recomendações estão manter a vacinação contra influenza atualizada para os grupos elegíveis, incentivar a vacinação das gestantes contra o VSR (para prevenção dos casos de bronquiolite em bebês nos primeiros meses de vida), conforme previsto pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI), e avaliar a indicação de anticorpos monoclonais para crianças elegíveis.

“Bebês prematuros, crianças pequenas com condições específicas de saúde (como cardiopatias) e recém-nascidos de mães não vacinadas ou imunossuprimidas também podem se beneficiar com o uso de anticorpos monoclonais. Em algumas dessas situações, o imunizante é disponibilizado gratuitamente por meio do SUS”, disse.

Os pediatras recomendam ainda a higienização frequente das mãos; manter ambientes ventilados; evitar as aglomerações e o contato de bebês com pessoas apresentando sintomas respiratórios; e não expor crianças doentes a creches, escolas ou locais fechados enquanto estiverem sintomáticas.

GUIA DE APOIO – Como parte do esforço para reduzir o impacto das infecções respiratórias na infância, a SBP publicou, em maio deste ano, em parceria com a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), o guia “Uso de imunizantes contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR): Vacinação em gestantes e uso de anticorpos monoclonais em crianças”. 

O documento apresenta evidências atualizadas sobre o papel da vacinação materna e dos anticorpos monoclonais na prevenção das formas graves da doença, além de orientar pediatras sobre as recomendações do PNI e das sociedades científicas. Entre os destaques do guia está a informação de que o VSR é a causa mais comum de bronquiolite, pneumonia e hospitalização em crianças menores de um ano.

Também são apresentadas evidências de que a vacinação materna reduz significativamente o risco de doença grave nos primeiros meses de vida e que os anticorpos monoclonais representam uma importante estratégia de proteção para lactentes e crianças elegíveis.