"A crise no Sistema Único de Saúde (SUS) deve ser enfrentada de frente pelas autoridades, pelos profissionais e pela população. Não podemos mais conviver com a situação de abandono e de falta de perspectivas que estão minando diariamente a confiança no nosso modelo de atenção. Esse é um patrimônio que deve ser preservado e aperfeiçoado para as futuras gerações”. Foi assim que reagiu a presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), dra Luciana Rodrigues Silva, aos dados que fazem parte de pesquisa divulgada nesta semana pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Instituto Datafolha.
Pelo estudo, no País, a saúde (pública ou privada) é classificada como péssima ou ruim por 55% dos brasileiros e regular para outros 34%. O trabalho teve o objetivo de identificar a expectativa dos brasileiros a respeito da atuação dos próximos governantes e parlamentares em relação à assistência médica. Também foi medida a opinião dos entrevistados, num aspecto geral, sobre a área da saúde e, de modo particular, a avaliação dos usuários sobre o atendimento no SUS, que neste ano completa 30 anos desde sua implementação.
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O relatório foi apresentado durante o XIII Encontro Nacional das Entidades Médicas (ENEM), que ocorreu nos dias 26 e 27 de junho em Brasília (DF), e que contou com a participação de vários pediatras, inclusive do secretário-geral da SBP, dr Sidnei Ferreira. Ao final do encontro, os participantes aprovaram um relatório com proposta para o aperfeiçoamento da saúde e do trabalho médico no País. A intenção é encaminhar o resultado aos candidatos às eleições de 2018.
CANDIDATOS – Na pesquisa, que também será repassada aos políticos, os brasileiros dão a fórmula para enfrentar a crise na saúde. Para a população, os políticos que vencerem o pleito devem adotar medidas que combatam a corrupção na área da saúde (26%); reduzam o tempo de espera por consultas, exames, cirurgias e outros procedimentos (18%); aperfeiçoem a fiscalização dos serviços na rede pública (13%); fomentem a construção de mais postos e hospitais (11%); e garantam a oferta de melhores condições de trabalho e de remuneração para médicos e outros profissionais da área (9%).
"Os números deixam claro: a saúde não pode ser ignorada pelos candidatos, e para atender o anseio legítimo da população por uma assistência de qualidade, é preciso tratar a questão com seriedade. Em vez de anúncios midiáticos, os brasileiros cobram planejamento, mais recursos e uma boa gestão. Essa pesquisa é uma importante contribuição dos médicos para o debate político, com foco sobretudo na qualificação do SUS, sistema que a população considera uma grande conquista a ser mantida e aperfeiçoada", ressaltou o presidente do CFM, Carlos Vital.
A pesquisa CFM/Datafolha teve abrangência nacional e ouviu 2.087 pessoas – 59% delas residentes no interior. A amostra composta por homens e mulheres, com idade superior a 16 anos ou mais, respondeu a um questionário estruturado. A valorização do SUS, como política social relevante, aparece com ênfase na pesquisa. Os números mostram que, para 88% dos entrevistados, o Sistema deve ser mantido no País como modelo de assistência de acesso universal, integral e gratuito para os brasileiros, conforme previsto em seus princípios e diretrizes legais.
GESTÃO E RECURSOS – Esse reconhecimento da importância do SUS, no entanto, não impede que a população aponte falhas na sua condução e "que podem ser superadas com vontade política e planejamento", aponta o secretário. Entre as dificuldades elencadas, 83% acreditam que os recursos públicos não são bem administrados, 73% que o atendimento não é igual para todos, e 62% que o SUS não tem gestores eficientes e bem preparados.
O trabalho sugere ainda que essa percepção de incompetência administrativa decorre, em grande parte, de questões sentidas no cotidiano das unidades de saúde, em todos os níveis de complexidade. Em primeiro lugar, a partir de suas próprias experiências, a grande maioria dos usuários da rede pública relata ser difícil ou muito difícil ter acesso ao atendimento na rede pública. Dentre 14 serviços disponíveis em postos e hospitais, que foram analisados, 11 foram alvo de críticas.
DIFICULDADE DE ACESSO – A pesquisa CFM/Datafolha revelou os itens que, no entendimento dos brasileiros, apresentam maior dificuldade de acesso no âmbito do SUS. O grupo considerado mais problemático inclui consultas com médicos especialistas (74%), cirurgias (68%), internação em leitos de UTI (64%), exames de imagem (63%), atendimento com profissionais não médicos, como psicólogos, nutricionistas e fisioterapeutas (59%) e procedimentos específicos (diálises, quimioterapia, radioterapia, etc.), com 58%.
Por sua vez, os serviços que alcançaram avaliação mais baixa (péssimo ou ruim) foram: internação em leito de UTI (29%); atendimento em pronto-socorro ou UPA (23%); consultas com médicos especialistas (23%); atendimento em posto de saúde (22%); internações em leitos comuns (21%); realização de cirurgias (19%); e consultas com médicos em posto de saúde (18%). O serviço mais bem avaliado foi o de oferta de vacinas.
PRINCIPAIS GARGALOS – A análise dos dados sugere, ainda, que, de forma geral, a percepção de mau atendimento decorre de problemas registrado ao longo do processo, como o tempo de espera para ter uma resposta do SUS para uma demanda encaminhada. Essa é a visão de 24% dos entrevistados, que na pesquisa apontaram a principal razão para o mal atendimento.
Também são vistos como vilões nesse processo a falta de recursos financeiros para o SUS (15%) e a má gestão administrativa e operacional do Sistema (12%). Questões como a falta de médicos (10%) e a dificuldade para marcar ou agendar consultas, cirurgias e procedimentos (10%) completam o topo desse ranking.
Porém, a pesquisa dá ainda outras pistas sobre o peso que o tempo de espera para o atendimento tem na vida do paciente e de seus familiares, dando maior lastro às críticas direcionadas ao SUS quando se fala sobre acesso a uma consulta, cirurgia ou exame. Na semana de realização das entrevistas (de 9 a 16 de maio), 39% declararam estar aguardando por algum tipo de atendimento na rede pública, índice nove pontos percentuais maior do que o registrado em pesquisa semelhante, realizada pelo CFM em 2014.
TEMPO DE ESPERA – O tempo de espera é o fator com avaliação mais negativa do Sistema Único de Saúde (SUS). Ele acumula os piores resultados dentre os vários aspectos relacionados ao atendimento. Trata-se do maior gargalo da rede pública para 61% dos entrevistados que buscam uma cirurgia, 56% dos que precisam de um exame de imagem e para 55% dos que aguardam uma consulta.
No período de realização da pesquisa, do total de entrevistados 34% aguardavam fazer uma cirurgia, 32% buscavam uma consulta médica e 31%, exames. Porém, chama a atenção que o SUS está levando mais tempo para responder às solicitações. Em 2014, uma pesquisa do mesmo tipo identificou que 29% dos que haviam pedido exame, cirurgia ou consulta ainda aguardavam um desfecho após seis meses. Em 2018, esse percentual passa a ser de 45%, quase duas vezes maior.
O mesmo fenômeno ocorre com o percentual dos que aguardam há mais de 12 meses. Em 2014, esse índice era igual a 16% dos entrevistados que haviam feitos pedidos específicos. Quatro anos mais tarde, a espera atingia 29% dos que estavam nessa categoria, ou seja, praticamente duas vezes mais.