A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), por meio de seu Grupo de Trabalho (GT) de Saúde dos Povos Originários, visitou o território indígena Krahô, no Tocantins, para compartilhar experiências com a população local e equipes de saúde e educação com o intuito de identificar possibilidades de cooperação futura. Para chegar à localidade, foram percorridos cerca de 400 km de Palmas a Itacajá, cidade mais próxima do território Krahô. Participaram da iniciativa quatro integrantes do GT de Saúde dos Povos Originários da SBP: dra. Ana Mackartney (coordenadora), dra. Fabíola Isabel Suano (membro), dra. Wilses Tapajós Jácome (médica indígena e membro do GT)e a antropóloga Reijane Pinheiro (membro).
Em conversa com o portal SBP, registrada na entrevista abaixo, as pediatras apresentaram detalhes da visita técnica e destacaram a importância de reconhecer as particularidades culturais de cada povo na promoção da saúde integral. Entre os princípios comuns estão alimentação saudável, educação de qualidade, oportunidade de brincar, cuidado parental e imunização. Para a SBP, cabe ao pediatra trabalhar de forma multidisciplinar e intersetorial, sempre em conjunto com a comunidade.
Confira a entrevista na íntegra:
Portal SBP – Como foi a receptividade da equipe de Atenção Primária à Saúde e das comunidades indígenas durante a visita?
Dra. Ana Mackartney – A primeira parada aconteceu no dia 17 de setembro no polo de Itacajá. Fomos muito bem recebidas por três equipes de Atenção Primária. Durante uma tarde inteira, os profissionais que atuam no atendimento à população indígena daquela região participaram de uma conversa conosco. Médicos, enfermeiros, dentistas, psicólogos e outros profissionais deixaram suas atividades para compartilhar suas experiências e mais detalhes sobre o território, com suas forças e vulnerabilidades. Foi um bate-papo muito enriquecedor. Um aspecto positivo é que hoje os percentuais de desnutrição e de excesso de peso entre as crianças Krahô não são elevados; e a cobertura vacinal no território é adequada, reflexo direto do trabalho próximo e cuidadoso das equipes de saúde.
Portal SBP – Quais foram os principais aspectos relacionados à alimentação e à nutrição das crianças e adolescentes Krahô observados durante a visita?
Dra. Fabíola Isabel Suano – No dia 18 de setembro, ao entrarmos efetivamente no território Krahô, fomos recebidas por toda a comunidade reunida sob uma grande mangueira, com uma mesa decorada. Participaram o cacique Ismael Ahprac Krahô, outras lideranças locais, profissionais da educação e a enfermeira e responsável técnica pelo Distrito Sanitário Especial Indígena do Tocantins (DSEI-TO), Janaína Xerente. A base da saúde deles está justamente em suas práticas culturais tradicionais: a roça, a pesca e os alimentos locais, com preparações que passam entre gerações. Ao mesmo tempo, observamos um processo de transição em curso. A proximidade com os núcleos urbanos vem trazendo os alimentos ultraprocessados para o dia a dia das famílias, muitas vezes sem que isso seja percebido como algo prejudicial.
Portal SBP – Quais são os principais desafios diante desse contexto?
Dra. Fabíola Isabel Suano – O maior desafio é proteger a terra e as águas, condições ambientais que sustentam a alimentação tradicional. O entorno das aldeias é marcado por intenso cultivo de soja e criação de gado, cenário que traz consigo o risco de contaminação por agrotóxicos, comprometendo a viabilidade do plantio tradicional, da caça e da pesca como fontes de alimento. Como nos foi dito pela própria comunidade, a perda do hábito de plantar e pescar representa uma transformação profunda nos hábitos alimentares. Além disso, os ultraprocessados, com suas embalagens, contribuem, em suas palavras, para “adoecer a terra”. Soma-se a isso a necessidade de educar famílias, crianças e adolescentes sobre os riscos, em curto e longo prazo, de substituir a comida do território (a “comida do mato” e a “comida da roça”) pelos alimentos industrializados.
Portal SBP – Quais outras questões relacionadas à saúde de crianças e adolescentes foram observadas?
Dra. Ana Mackartney – Um aspecto discutido foi o uso intenso de telas. As crianças têm encontrado dificuldade para se afastar dos dispositivos eletrônicos para brincar e participar de outras atividades. Além disso, também foram apontados o consumo de álcool em alguns territórios e um aumento de sintomas ansiosos e depressivos entre os jovens, segundo relato da psicóloga das equipes. São sinais de alerta importantes, que reforçam uma preocupação da própria comunidade. Eles expressam o medo de, além da mudança na alimentação, perderem rituais, crenças e um modo de vida inteiro.
Portal SBP – Que cuidados são necessários para que as ações de promoção da saúde e da alimentação respeitem os hábitos e a cultura indígena?
Dra. Fabíola Isabel Suano – O primeiro cuidado é reconhecer que não existe uma resposta única para os povos indígenas. Os problemas e as soluções do povo Krahô são diferentes daqueles do povo Yanomami, que, por sua vez, são diferentes dos observados entre o povo Guarani. São populações que classificamos genericamente como “indígenas”, mas que possuem histórias, cosmologias e organizações sociais muito distintas entre si. Conhecer profundamente seus costumes é o ponto de partida indispensável de qualquer ação de saúde ou alimentação. O segundo cuidado é atuar de forma integrada com a Atenção Primária e a educação, escutando quem já está no território: as equipes de saúde multiprofissionais do DSEI-TO, que incluem profissionais indígenas e conhecem as particularidades dessa população. Foi esse princípio que guiou a composição da comitiva da visita, que contou pela primeira vez com uma médica indígena (dra. Wilses Tapajós) e uma antropóloga (dra. Reijane Pinheiro) no GT de Saúde dos Povos Originários da SBP. Foram presenças essenciais para o encontro ocorrer de forma culturalmente responsável. Um terceiro cuidado é apoiar as estruturas que a própria comunidade já construiu e que são sustentadas por políticas públicas intersetoriais, como a escola no meio da aldeia. Ela oferece educação, alimentação saudável e proteção de telas (não é permitido o uso de celular no ambiente escolar). Nas aulas, a criança aprende (língua, ciência e como plantar) e se alimenta de forma saudável. Essa premissa é reforçada pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Hoje, pelo menos 45% dos recursos do programa devem vir da agricultura familiar, com prioridade para comunidades indígenas, limitando a compra de alimentos ultraprocessados a, no máximo, 10%. Respeitar a cultura, nesse sentido, significa fortalecer o que a comunidade já constrói, e não o substituir por modelos externos.
Portal SBP – A partir das necessidades identificadas na visita, quais ações podem ser desenvolvidas para contribuir com a saúde e a nutrição das crianças e adolescentes Krahô?
Dra. Ana Mackartney – Diante do contexto observado, uma das principais demandas é a necessidade de melhorar a qualidade da alimentação. É importante fortalecer iniciativas que possibilitem a retomada do cultivo e da produção de alimentos, resgatando práticas tradicionais. Também pensamos em apoiar e divulgar as iniciativas que a própria comunidade já vem liderando contra o uso excessivo de álcool, celular e apostas online, fortalecendo o protagonismo das lideranças e das famílias nesse processo.Dra. Fabíola Isabel Suano – Sim. Há muita força já em movimento no território Krahô de Manoel Alves. Temos equipes de saúde atuantes e próximas da comunidade, cobertura vacinal adequada, uma escola que já integra educação, alimentação saudável e proteção de telas. Valorizar esses profissionais, reconhecendo o trabalho que já fazem, é o ponto de partida de qualquer ação futura. A partir desse contexto, uma primeira possibilidade é produzir um material voltado ao pediatra, registrando essa experiência e a cultura do povo Krahô, detalhando o trabalho integrado que já acontece lá, para que sirva de referência a outros pediatras e a outros territórios que a SBP venha a visitar. Outra ação que planejamos é desenvolver uma adaptação dos princípios do Guia Alimentar para Crianças Menores de 2 Anos. A publicação teria como foco a saúde da gestante e da lactante, o incentivo ao aleitamento materno e à alimentação complementar variada, baseada em alimentos regionais, na língua e no formato que as crianças e adolescentes Krahô reconhecem, inclusive com desenhos feitos pelas próprias crianças a partir dos conceitos do Guia, e com a participação indispensável da comunidade local nessa construção. Defender políticas públicas que caminhem nesse sentido é fundamental. Para isso, precisamos dar continuidade ao diálogo entre a SBP e os povos originários, com participação de profissionais indígenas e escuta ativa das comunidades, como referência para as próximas ações, tanto no território Krahô quanto em outros que venham a ser visitados.