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Risco de suicídio também afeta a população de crianças e adolescentes

SBP em Ação 13/09/2016
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Dr. Orli Carvalho da Silva Filho (IFF/Fiocruz)

 

“Crianças a partir dos oito anos de idade já compreendem a morte e podem tentar o suicídio. O acesso aos meios é um fato consumado para o ato”. Esse é o entendimento do dr. Orli Carvalho da Silva Filho, médico psiquiatra da infância e adolescência do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz). De acordo com ele, o estudo “Preventing suicide – A global Imperative”, publicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2014, a importante causa para a mortalidade por suicídio na faixa-etária entre 15 e 29 anos se dá pelo caráter impulsivo nesta faixa etária e pela facilidade de uso de diferentes mecanismos.

Os dados da OMS colocam o Brasil em oitavo lugar no mundo, com variabilidade regional interna, dentre os que possuem maior taxa de mortalidade por suicídio, com uma média de 33,3 casos para cada grupo de 100 mil habitantes. Os Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre os anos de 2002 e 2012, houve um crescimento dos índices específicos nas Regiões Norte e Nordeste do Brasil. Os três estados onde os indicadores mais aumentaram, no período, foram Paraíba (109,7%), Amazonas (100,6%) e Tocantins (90,9%). Por outro lado, houve redução percentual no Ceará, Santa Catarina, Rio Grande do Norte, Distrito Federal, Rio de Janeiro e Amapá.

NÚMEROS ABSOLUTOS - A meta da Organização Mundial da Saúde é reduzir a taxa de suicídio global em 20% até o ano de 2020. Os países com os maiores índices são a Guiana, com índice de 44,2 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes, e a Coreia do Norte, com 38,5. Em números absolutos, Índia, China e Estados Unidos têm os maiores índices.

Do ponto de vista clínico, a estimativa é de que a cada 10 tentativas de suicídio, uma se concretize. Três características corroboram para a prática: ambivalência, impulsividade e rigidez/constrição, explica o especialista, para quem “os fatores de risco principais nos pacientes com comportamentos suicidas são a tentativa do ato em si e o acesso aos meios”.

Dentre os principais fatores que causam o suicídio, ele enumera: os transtornos de humor (35,8%), os transtornos relacionados ao uso de substâncias (22,4%), os transtornos de personalidade (11,6%), a esquizofrenia (10,6%) e os transtornos de ansiedade/somatoformes (6,1%). As conclusões são do estudo Diagnósticos Psiquiátricos e Suicídio – uma perspectiva mundial, publicado em 2002.

INCIDÊNCIA – A maior incidência de casos de suicídio atinge a faixa-etária entre 19 e 23 anos. Cerca de 90% dos casos têm associação com transtornos mentais no período. “Em 50% dos casos, tal associação se deu nos dois anos anteriores a essa idade, ou seja, a partir dos 17 anos”, conclui o dr. Orli. O especialista alerta que os fatores de risco que mais contribuem para isso são história de “suicidalidade” (ainda pensa em suicídio/tentativa prévia), demográficos (sexo masculino/morar sozinho), estado mental (transtorno de humor / uso de substância / irritabilidade, agitação ou sintomas psicóticos), história familiar (comunicação frágil com cuidadores/casos familiares) e história social (abuso sexual / minorias sexuais e étnicas / fragilidade de grupos apoio).

O tema foi discutido durante o 18º Fórum da Academia Brasileira de Pediatria (ABP), realizado no Rio de Janeiro, na semana passada. Pela gravidade do problema e profundidade das apresentações, a mesa-redonda “Morte violenta na criança e no adolescente” – coordenada pela dra. Conceição Aparecida de Mattos Segre, assessora de campanhas da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e relatada pela dra. Leda Amar de Aquino, membro da Comissão Local – foi um dos destaques da programação.

Coincidentemente, no mesmo período, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) lançaram a campanha Setembro Amarelo, com objetivo de chamar a atenção da sociedade para a importância de estimular formas de prevenção ao suicídio, cuja data oficial é dia 10. “Precisamos trabalhar para mudar essa realidade. Cabe ao Governo Federal realizar campanhas de educação em saúde bem como oferecer tratamento psicoterápico e farmacológico para esse tipo de transtorno. À mídia, cabe orientação correta sobre o tema à sociedade civil”, conclui o dr. Orli.

A partir das discussões levantadas no 18º Fórum “As transformações da família, da sociedade e seu impacto na infância e juventude” sobre o tema, os especialistas pretendem encaminhar parecer aos responsáveis para fomentar ações de políticas públicas. “A comissão local, que é composta por membros da Sociedade de Pediatria do Rio de Janeiro (SOPERJ), emitirá relatórios sobre os temas debatidos e entregará às pessoas que ajudarão na ação de políticas públicas”, finaliza a dra. Isabel Rey Madeira, presidente da SOPERJ e membro da Comissão Local do 18º Fórum ABP.

TRANSFERENCIA - “O suicídio de adolescentes é subnotificado e subdiagnosticado. A sociedade despreza o sofrimento real da criança. Falta um olhar de atenção e cuidado”, lamenta a presidente do Departamento Científico de Desenvolvimento e Comportamento da SBP, Liubiana Arantes. Segundo ela, a terceirização da infância, acarretada pela falta de tempo dos pais, que transferem para a escola e para as atividades extraescolares cuidados que deveriam ser da família, contribui para a triste estatística.

Outro problema que interfere na questão é a dificuldade de se fazer o diagnóstico de depressão nos adolescentes, pois, na maioria das vezes, a irritabilidade, assim como a agressividade e outras mudanças de comportamento, é vista como característica normal dessa faixa etária. A culpa que os pais sentem quando são apontadas essas mudanças de comportamento nos filhos também dificulta um possível tratamento, afirma a dra Liubiana.

Na opinião da neuropediatra, o pediatra pode desenvolver um papel fundamental na prevenção do suicídio por ser um possível intermediador entre o adolescente e a família. É preciso, segundo a neuropediatra, ter tempo para escutar a criança, observar seu estado emocional, valorizar a queixa e ter um cuidado especial ao avaliar a mudança de comportamento relatada pela família. Além de observar o corpo da criança para perceber sinais de cicatrizes.

Somado a todo preconceito que envolve a questão e dificulta o enfretamento da doença está a falta de infraestrutura e recursos humanos na rede pública e privada de saúde no Brasil. Em 2006, o Ministério da Saúde apresentou para a OMS a Estratégia Nacional de Prevenção ao suicídio, mas a política não saiu do papel. “Existem centros de atendimento à criança e ao adolescente. Mas são insuficientes”, relata Liubiana.