“Orientações a respeito da gravidez na adolescência devem estar sempre presentes durante as consultas de aconselhamento breve sobre álcool e drogas”. A recomendação é do dr. João Paulo Becker Lotufo, representante da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) para o assunto de drogas, que durante a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência faz um alerta sobre a importância de se enfatizar o assunto junto a pacientes, familiares e pediatras.
Segundo o especialista, a abordagem simultânea dos dois temas é fundamental, uma vez que o consumo de substâncias psicoativas lícitas e ilícitas representa um dos principais fatores que aumentam as chances da gestação precoce.
“O primeiro contato com o álcool da população pediátrica tem acontecido cada vez mais cedo. Essa conduta catastrófica geralmente implica em atitudes impensadas, que podem gerar repercussões graves e para toda a vida. Por exemplo, boa parte das adolescentes engravida após uma noite de festa, em que não há a supervisão de adultos responsáveis e quando o álcool e outras drogas são utilizados livremente”, explica.
De acordo com o dr. João Paulo Lotufo, somente o Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP) realizou 1.535 partos em adolescentes de 12 a 17 anos de idade, entre 2012 e 2017. O número corresponde a um parto por dia diante dos dez partos que acontecem diariamente na unidade. Os dados mais recentes divulgados pelo Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde, revelam um panorama não muito diferente. No Brasil, o percentual de gravidez na adolescência representa cerca de 18% do total de nascidos vivos em 2015.
PERIGOS – Além dos efeitos sobre a trajetória de vida dos adolescentes, a combinação de álcool e gravidez precoce representa um grande risco à saúde. Dr. Lotufo explica que, mesmo em pequenas quantidades, o consumo de álcool ou outros tipos de drogas durante a gestação pode desencadear diferentes problemas no bebê, como quadros de síndrome de abstinência no recém-nascido e a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF).
Entre os efeitos deletérios mais recorrentes na criança, estão atrasos no crescimento e desordens de comportamento. A elevação da pressão arterial e crises convulsivas (eclampsia e pré-eclâmpsia) são alguns dos problemas de saúde associados à mãe que engravida na adolescência.
“Essa situação alarmante requer o engajamento de toda a sociedade e atenção especial dos pediatras, que precisam estabelecer um canal de diálogo com seus pacientes. Dentro do ambulatório geral, incluindo o aconselhamento breve sobre álcool e drogas, devemos gastar alguns minutos para falar sobre métodos de prevenção e sempre averiguar indícios de riscos na conduta relatada pelo paciente”, conclui.
Em 2018, a SBP publicou o documento especial “Intervenção breve na prevenção de álcool e drogas na consulta pediátrica”, que reúne orientações gerais aos pediatras no tratamento do assunto com seus pacientes e familiares. O texto foi produzido pelo dr. João Paulo Becker Lotufo em parceria com o dr. Rafael Yanes Rodrigues, médico assistente e responsável pelo ambulatório de pediatria do Hospital Universitário da USP.
*Com informações do jornal da USP