A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) celebra a eleição da pediatra e neonatologista dra. Maria Elisabeth Lopes Moreira como Membro Titular da Academia Nacional de Medicina (ANM). A especialista ocupará a Cadeira nº 17, cujo patrono é o acadêmico Carlos Pinto Seidl. Ela é a 11ª mulher eleita e a primeira pediatra a integrar a instituição em quase dois séculos de história.
A especialista é pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professora titular do Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e da Mulher do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz). Na SBP, já integrou o Departamento Científico de Suporte Nutricional.
Para falar sobre a conquista, a SBP convidou a dra. Maria Elisabeth para uma conversa na qual ela relembrou sua trajetória, falou sobre suas prioridades e sobre o que pretende fazer na ANM. A entrevista foi conduzida pelo presidente da SBP, dr. Edson Liberal, e pelo jornalista Leonardo Martes.
Confira abaixo a entrevista, que celebra a conquista e apresenta um pouco da trajetória da dra. Maria Elisabeth.
EDSON LIBERAL: Hoje recebemos a doutora Maria Elisabeth Lopes Moreira, também conhecida carinhosamente por nós como Bebeth. Ela é a primeira mulher pediatra a ocupar uma cadeira na Academia Nacional de Medicina.
Bebeth, seja bem-vinda. É uma honra para toda a pediatria ter você na ANM!
MARIA ELISABETH LOPES MOREIRA: Muito obrigada. É uma honra para mim estar aqui na SBP. Sou associada da SBP desde 1984 e gosto muito desse pertencimento e da forma como a instituição trabalha conosco, médicos. Por isso, espero, agora nessa posição, contribuir ainda mais para a SBP e para a pediatria de forma geral.
LEONARDO MARTES: O que representa para a senhora, pessoal e profissionalmente, ser eleita para a Cadeira nº 17 da Academia Nacional de Medicina?
MARIA ELISABETH LOPES MOREIRA: Para mim, pessoalmente, é uma grande honra estar lá. É uma forma de encontrar aqueles que costumo chamar de meus pares, os próprios acadêmicos. Ser uma daquele grupo que compõe a Academia Nacional de Medicina é uma honra de todas as formas. É claro que construí uma trajetória que culmina com isso, mas considero esse o ponto alto da minha carreira como pesquisadora, como médica e, principalmente, como pediatra e neonatologista.
EDSON LIBERAL: Como você recebe o marco de ser a 11ª mulher e a primeira pediatra eleita em 197 anos de história da Academia Nacional de Medicina? E qual mensagem essa conquista deixa para jovens médicas e pesquisadoras no Brasil?
MARIA ELISABETH LOPES MOREIRA: Fico muito honrada de ser a primeira mulher pediatra a fazer parte da ANM e espero contribuir para a sociedade de forma geral, mas principalmente para o mundo pediátrico, para todas as questões relacionadas ao crescimento e ao desenvolvimento e para a melhoria da saúde da população a partir da saúde da criança.
Para os jovens aprendizes, para os novos pediatras, para aqueles médicos que ainda estão decidindo que carreira seguir, costumo dizer que a pediatria pode não ser a especialidade que vai dar mais dinheiro, mas, com certeza, é a que vai dar mais satisfação. Ver uma criança crescer e se desenvolver e saber que fazemos parte do futuro de alguém é muito importante e uma grande honra para nós, pediatras. Isso não tem preço. Por isso, digo aos jovens aprendizes e aos colegas que estão terminando a faculdade que venham fazer pediatria, porque vocês serão felizes, antes de tudo.
EDSON LIBERAL: Em relação à pediatria, e concordando com você sobre essa felicidade de ser pediatra, o que essa posse representa para a especialidade no País e quais pautas prioritárias da saúde materno-infantil a senhora pretende levar aos debates da ANM?
MARIA ELISABETH LOPES MOREIRA: Acho que a grande questão da pediatria hoje ainda é o crescimento e o desenvolvimento, porque nessa fase da vida existe o que chamamos de neuroplasticidade. Qualquer problema identificado pode ser tratado e, de alguma forma, melhorado significativamente, ou até resolvido, dentro das questões do crescimento e desenvolvimento adequados. Por isso, é uma etapa fundamental da vida. Gostaria de levar adiante, assim como a Sociedade tem feito recentemente, essa bandeira do crescimento e desenvolvimento e da inclusão do pediatra na saúde da família.
Claro que a saúde perinatal, puxando um pouco para o meu lado da neonatologia, também é importante. Conquistamos grandes progressos nos últimos anos com a redução da mortalidade neonatal, mas ainda precisamos melhorar muito a mortalidade materna, que continua sendo um problema para o nosso País.
Todas essas questões são muito importantes para mim, pessoal e profissionalmente, para a Sociedade Brasileira de Pediatria e para os pediatras de forma geral.
LEONARDO MARTES: Como a senhora enxerga o papel da investigação científica produzida no Brasil no fortalecimento de políticas públicas e na melhoria direta da assistência ao recém-nascido no SUS?
MARIA ELISABETH LOPES MOREIRA: Na minha opinião, a pesquisa qualifica a assistência. Sou também professora, além de pesquisadora e médica, e, quando incutimos nos alunos a capacidade de pensar, de questionar e de olhar para a frente, já avançamos muito. Tanto o ensino quanto a pesquisa nos tornam médicos melhores. Costumo dizer que sou uma médica que pesquisa, porque minhas questões de pesquisa derivam todas da minha prática médica diária.
Com esse conceito de que a pesquisa qualifica a assistência de forma geral, acredito que fazer pesquisa é uma forma de melhorar a assistência e o cuidado com as nossas crianças, com certeza, porque é uma maneira sistematizada de olhar para os problemas. Desde a pesquisa básica até a pesquisa epidemiológica, tudo pode nos trazer informações importantes que melhoram a nossa assistência no dia a dia.
EDSON LIBERAL: Sabemos, pelo que acompanhamos da sua trajetória, que as questões que você pesquisa são fundamentais, sempre antenadas com o que surge, buscando dar respostas ou abrir caminhos para que a saúde pública possa melhorar. Agora, no pós-pandemia, qual considera ser o papel fundamental do pediatra e quais conselhos deixa aos colegas que dedicam a vida a essa especialidade?
MARIA ELISABETH LOPES MOREIRA: De novo, volto a dizer que a questão do crescimento e desenvolvimento é fundamental. As crianças ficaram muito prejudicadas durante a pandemia e, hoje, no pós-pandemia, notamos o impacto que a interrupção da escola e do brincar fora de casa trouxe para elas. Houve uma interrupção de algumas atividades e de ganhos que as crianças teriam, mas que podem ser recuperados. Essa é a beleza de ser criança e de tratá-las, pois sabemos que, investindo e estimulando corretamente, elas se recuperam plenamente.
Por isso, o diagnóstico precoce é tão importante. As pandemias, tanto de zika quanto de covid-19, trouxeram essa informação para nós, pediatras, de forma muito presente. É também por isso que a SBP tem investido tanto em retomar a discussão sobre a presença do pediatra na saúde da família. Outro ponto fundamental é a questão das telas, que a pandemia trouxe com muita força para as crianças e para as famílias presas em casa. A discussão sobre telas na escola, sobre a proibição, é um caminho já percorrido, mas ainda temos muito a avançar.
LEONARDO MARTES: Uma palavra que resume o sentimento em relação ao ponto a que a senhora chegou em sua carreira?
MARIA ELISABETH LOPES MOREIRA: Orgulho.
LEONARDO MARTES: E, por fim, que conselho a senhora deixa para os jovens pediatras que estão começando a carreira agora? A senhora já falou bastante sobre a questão do desenvolvimento. Além dela, algum outro conselho?
MARIA ELISABETH LOPES MOREIRA: Continuem a estudar sempre. Levem consigo a máxima de que só sei que nada sei, porque é essa consciência que nos faz avançar, melhorar e caminhar em direção ao futuro. Estudar e perguntar são fundamentais. Às vezes, os nossos jovens alunos têm medo de perguntar, mas não percebem que, muitas vezes, é da pergunta deles que surge uma nova questão de pesquisa. A medicina, de forma geral, e a pediatria, especialmente, exigem que estejamos sempre investigando, sempre pensando e sempre perguntando.
EDSON LIBERAL: Essa questão de estudar é fundamental. Costumo dizer que, quando alguém se dá muito bem, não é só inspiração. Como costumo falar para os meus filhos e meus netos: é preciso sentar-se, estudar, ler, perguntar, aprofundar-se. Não há outro caminho além de buscar aumentar o conhecimento.
MARIA ELISABETH LOPES MOREIRA: E a empatia também é fundamental na nossa especialidade. Construir uma relação de empatia com as famílias, entender que as crianças fazem parte de um contexto familiar, da sociedade e de tudo mais e que não podem ser desvinculadas disso.
EDSON LIBERAL: Bebeth, você gostaria de acrescentar mais alguma coisa?
MARIA ELISABETH LOPES MOREIRA: Muito obrigada por me receberem aqui. Já sou da casa, mas espero contribuir. Espero que essa parceria que posso trazer agora, em relação à Academia, com a visibilidade que ela nos dá, possa ajudar ainda mais a Sociedade Brasileira de Pediatria na conquista de grandes feitos para as nossas crianças, para os nossos bebês.
EDSON LIBERAL: Sem dúvida. Não podia deixar de registrar que estamos vivendo hoje um momento histórico: a primeira mulher pediatra que vai assumir uma cadeira na Academia Nacional de Medicina. Esse registro é realmente histórico, e é uma grande felicidade que seja a Bebeth assumindo essa cadeira, uma pessoa que sempre se dedicou à pesquisa, ao ensino e nunca se afastou da prática.