Publicado/Atualizado: outubro/2026

Dóris Rocha Ruiz

GT de Saúde oral

A chegada do primeiro dente de leite é um marco para toda a família e um momento essencial para iniciar novos cuidados orais, tanto em casa quanto no consultório. O processo começa com a primeira consulta do bebê com o odontopediatra e com o início da escovação diária, utilizando escova e pasta de dentes com flúor, sempre após o café da manhã e antes de dormir.  Se o dente de leite do bebê não aparecer, deve-se agendar a consulta com o especialista antes do bebê completar o primeiro aniversário.

  • Quando deve ser a consulta do bebê no odontopediatra?

Diretrizes nacionais e internacionais sugerem que a família deva agendar uma consulta com o odontopediatra assim que aparecer o primeiro dente de leite na boca ou, caso isso não ocorra, antes de o bebê completar o primeiro ano de vida.

Fique atento à boquinha do bebê: essa consulta poderá ser necessária antes mesmo de o dente de leite chegar!

  • Por que a escolha de um odontopediatra e não o dentista da família?

É relevante esclarecer que o odontopediatra é o dentista especializado no cuidado da saúde oral, desde a orientação aos pais durante o pré-natal odontológico até as ações e condutas odontológicas da fase neonatal à adolescência. Este profissional possui conhecimento científico e técnico que inclui a abordagem psicológica adequada ao atendimento desses ciclos da vida.

  • Qual a finalidade da consulta com o odontopediatra tão cedo?

A especialidade da Odontopediatria deve estar inserida no contexto de atendimento interdisciplinar do paciente infantil, no qual os cuidados com a saúde oral fazem parte da atenção à saúde como um todo, promovendo bem-estar e qualidade de vida.

Aconselha-se educar em saúde oral por meio de consultas regulares ao longo de toda a infância e adolescência. Assim, cria-se um vínculo de confiança entre a família, o profissional e a criança, o que é fundamental para o sucesso das ações odontológicas preventivas. Esse acompanhamento odontológico, desde os primeiros meses de vida, permite ao odontopediatra iniciar os cuidados para evitar as doenças orais, além de acompanhar a erupção dos dentes e o crescimento e desenvolvimento das arcadas, favorecendo a realização adequada das funções orais e a boa estética do sorriso.

  • Quando deve aparecer o primeiro dente de leite na boca?

Em primeiro lugar, é importante lembrar que seu bebê é único! Assim como o dia em que surgirá o primeiro e, depois, os demais dentes de leite serão únicos também!
O surgimento dos dentes de leite na maioria dos bebês normalmente se inicia entre o sexto e o oitavo mês de vida. Todos os vinte dentes decíduos devem estar presentes na boca até por volta dos dois anos e meio de idade.

Os pais precisam ficar atentos, pois alguns bebês podem adiantar ou atrasar a erupção de forma fisiológica ou por alguma condição genética, sistêmica, metabólica, nutricional ou local. Vale ressaltar que, em bebês prematuros, deve-se utilizar a idade corrigida para a prematuridade para acompanhar a chegada dos dentes de leite!

Embora não seja tão frequente, alguns bebês já podem nascer com dentes ou apresentar dentes nos primeiros vinte e oito dias de vida. São os chamados dentes natais e neonatais, respectivamente. Nesses casos, o exame e a radiografia odontológica imediatos são fundamentais para avaliar a manutenção ou a remoção do dente.

Saiba que existe uma sequência ideal para a chegada dos dentes de leite para o melhor encaixe na boca, a chamada oclusão. Por isso, é fundamental o monitoramento com o odontopediatra. Um bom encaixe dos dentes favorece a função mastigatória eficiente e proporciona um sorriso saudável ao longo da infância. Inclusive, algumas crianças podem ter a necessidade de uso de dispositivos ortodônticos e ortopédicos na fase de  dentes de leite para favorecer o crescimento da boca e face.

  • Quais sintomas são frequentes nessa fase de chegada dos dentes de leite?

A chegada do primeiro dente de leite é um momento inesquecível e muito festejado pelas famílias, marcando uma nova fase no sorriso do bebê. Contudo, além das comemorações, é comum que esse período traga pequenos desafios, como desconforto gengival, irritabilidade, problemas com o sono, diminuição do apetite e a famosa “baba”. Mas lembre-se: cada bebê reage de um jeito e nem todos sofrem com esses incômodos! Fique alerta caso note sinais diferentes ou mais graves, pois eles podem não ter relação com a dentição e exigir uma consulta médica para garantir a saúde do bebê.

  • O que fazer quando para aliviar os desconfortos dos dentes de leite chegando?

A amamentação e a transição para a alimentação sólida são excelentes formas de promover um alívio natural. A fase em que a criança começa a ingerir sólidos coincide com o nascimento da dentição, tornando-se o momento ideal para introduzir alimentos nutritivos de variadas cores, texturas e sabores. Esse estímulo à mordida e à mastigação auxilia no nascimento saudável e no correto posicionamento dos dentes. Além disso, demonstrações de afeto e massagens suaves na gengiva e no corpo ajudam a acalmar e acolher o bebê. Os mordedores infantis apropriados para esse período também servem como divertidos aliados. No entanto, esses objetos e brinquedos precisam ter designs e materiais seguros, livres de substâncias nocivas como os desreguladores endócrinos (a exemplo do bisfenol/BPA). Vale ressaltar que eles jamais devem ser colocados no congelador. Além disso, alerta-se para não oferecer produtos contendo anestésico local, bem como evitar o uso de colar ou pulseira de âmbar, devido aos elevados riscos à segurança do bebê.

  • Dentes de leite são temporários. Por que cuidar deles se vão cair?

Sim, eles são temporários, mas são extremamente importantes e devem permanecer saudáveis durante toda a infância, até que sejam gradativamente substituídos pelos dentes permanentes.

A manutenção da saúde dos dentes de leite é necessária porque eles guardam e direcionam o espaço para os dentes permanentes. Além disso, quando estão bem posicionados, eles estimulam o bom crescimento dos ossos da face por meio da mastigação correta. Dentes de leite saudáveis também são fundamentais para o desenvolvimento da fala, para o bom funcionamento das demais funções orais e, claro, para favorecer um belo sorriso e a autoestima da criança.

  • Quais hábitos favorecem a saúde da boca na fase dos dentes de leite?

Aleitamento materno: Exclusivo por seis meses e mantido até os dois anos ou mais junto aos alimentos complementares, sempre que possível para a díade mãe-bebê. A natureza é perfeita: o leite materno também é fundamental para a modulação do microbioma oral, que protege a saúde do bebê! Além disso, os próprios movimentos realizados pelo bebê durante a sucção e a deglutição, em sincronia com a respiração nasal na amamentação, favorecem o desenvolvimento correto e simétrico da boca e da face. Estes estímulos naturais preparam todas as estruturas orais para as funções da mastigação e da fala. Quanto mais tempo o bebê for amamentado, melhor será para a sua saúde oral e global, inclusive para evitar o uso de aparelhos ortodônticos no futuro.

Evitar o açúcar: Não oferecer alimentos e bebidas contendo açúcar (sacarose) até os dois anos de idade. Depois, seguir com o consumo inteligente de açúcares — isto é, sem excessos, em horários adequados e verificando a qualidade dos alimentos. Prefira oferecer alimentos com alto valor nutritivo, naturais e frescos, como frutas, em vez de doces industrializados.

Evitar uso de mamadeira e chupetas: não existem bicos ortodônticos; todos podem resultar em impactos negativos às funções orais, ao sorriso e a mordida do bebê.

Estímulo funcional: Respirar bem pelo nariz, estimular o aprendizado gradual e individual da boa mastigação e fala favorecem o alinhamento dos dentes e do sorriso.

Higiene oral: Manter os cuidados com a higiene oral diária. Utilizar escova infantil e uma pequena quantidade de pasta de dentes com flúor. O fio dental pode ser necessário quando os dentes de leite forem muito juntos.

Consultas odontopediátricas preventivas: Vale ressaltar a importância de manter a rotina dessas consultas para a promoção da saúde oral e para o monitoramento do crescimento e desenvolvimento craniofacial ao longo de toda a infância e adolescência.

  • Os pais devem participar da rotina de higiene oral das crianças?

Até os cinco anos de idade, recomenda-se que a higiene oral seja realizada pelo adulto responsável. A partir dessa idade, a criança pode escovar os dentes sozinha, mas sempre com a complementação e sob a supervisão de um adulto. Geralmente, por volta dos oito anos, ela já adquiriu a habilidade motora necessária para realizar a escovação com autonomia total.

Lembre-se de que a melhor forma de educar é dar o exemplo: escove seus próprios dentes na frente do bebê ou da criança e use a imaginação e a criatividade para tornar esse momento divertido. Além disso, permaneça no banheiro sempre junto com a criança para evitar acidentes (como quedas e engasgos) e impedir a ingestão excessiva de pasta de dentes. Sempre siga as recomendações do odontopediatra para a higiene oral!

  • Por que os pais devem cultivar hábitos que mantenham a boca do bebê saudável?

Vale destacar que a manutenção da saúde oral desempenha um papel fundamental no bem-estar geral do indivíduo em todos os ciclos da vida. Por se caracterizar como uma cavidade de comunicação direta com o meio externo, a boca atua como uma das vias de acesso para microrganismos, como fungos, vírus e bactérias. Uma vez instalados, esses agentes se multiplicam e se disseminam pelo corpo humano por meio da deglutição, da corrente sanguínea ou da aspiração pulmonar. Assim, os pais, com o apoio dos profissionais da saúde, devem somar esforços para optar por comportamentos e por um estilo de vida saudável na fase neonatal e ao longo de toda a infância, período em que ocorre o maior pico de aquisição, estabelecimento e diversidade do microbioma oral, mantendo o equilíbrio e promovendo a saúde oral e global infantil.